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Alexandre Padilha: febre amarela, uma crise anunciada

05/02/2018 11:01

Publicado originalmente pela Fundação Perseu Abramo 

Há uma combinação de possibilidades para isso. Certamente o avanço da ocupação humana em territórios da forma silvestre da doença, o avanço imobiliário, instalações industriais ou atividades ocupacionais. E ainda crimes e acidentes ambientais – como há correlações possíveis entre o crime na barragem de Mariana, em Minas Gerais, e a expansão de casos pelo estado e no Espirito Santo. Além disso, a ampliação do turismo ecológico e, sim, a desarticulação recente do sistema de vigilância e de resposta a surtos nos três níveis do SUS.

Como médico e professor, especializado em infectologia, tive oportunidade de coordenar a implementação do Núcleo de Extensão em Medicina Tropical do Departamento de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Universidade de São Paulo na cidade de Santarém, no Pará e o ambulatório de orientação e cuidado para doenças dos viajantes do Hospital das Clínicas/FMUSP, no final dos anos 90. Nestas duas experiências concomitantes, pude conviver com duas realidades: uma região endêmica para febre amarela com casos raros de pessoas não vacinadas e os impactos dos surtos do final dos anos 90, início dos anos 2000, que atingiram populações e exigiram ampliação das áreas de vacinação.

No final da primeira década do ano 2000, fazia parte da Coordenação Política do presidente Lula e assisti a uma sórdida campanha da imprensa contra o Ministério, que provocou um surto de febre amarela vacinal, levando a óbitos de pessoas que não tinham menor indicação de receber a vacina.

Na condição de Ministro da Saúde da presidenta Dilma, pudemos consolidar a tecnologia brasileira de produção da vacina, conquistar padrões definitivos de qualidade e ampliar a produção nacional e exportação para o mundo. Hoje, o Brasil assiste ao maior surto de febre amarela silvestre (os noticiários falam do maior surto deste século), que tem produzido pânico real entre parcela da população e dúvidas entre profissionais de saúde.

Apesar do número importante de casos, é importante saber que hoje o Brasil possui casos de febre amarela silvestre, que é aquela que acontece em áreas de florestas, onde necessariamente há um tipo de mosquito, Haemagogus e Sabethes, que só vive nessa área, e não nas cidades, que pica um hospedeiro - os macacos – e, logo, transmite para o homem que entra na floresta. Desde a metade do século 20 o país não possui casos de febre amarela urbana. A última incidência foi em 1942, no Acre.

No período de julho de 2017 a 31 de janeiro de 2018, o país registrou 213 casos confirmados de febre amarela com 21 óbitos. No mesmo período do ano passado, foram 468 casos com 147 mortes, de acordo com boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde.

O maior número de casos da doença, de acordo com a série histórica, até antes da situação atual, aconteceu no ano de 2000, com 85 casos. Nos anos seguintes a doença teve pequeno aumento nos anos de 2008 e 2009. Nestes dois períodos, a ocorrência de casos em pessoas da região Sudeste que se expuseram em atividades de turismo e a cobertura alarmista de parte da imprensa, sobretudo no segundo período, desencadeou um conjunto de óbitos pós-vacinais.

Em ambas as situações, entretanto, a ocupação humana em florestas em regiões não endêmicas já revelava um possível deslocamento da febre amarela silvestre, exigindo à época uma ampliação da indicação de vacinação para novas regiões. Tais medidas foram realizadas, o que levou a um período de controle de casos entre 2010 ao final de 2015, foram 22 casos confirmados.

O fato novo neste momento, que se inicia em 2016, é o deslocamento dos casos de febre amarela silvestre para florestas mais próximas das grandes cidades, regiões sem transmissão, como, por exemplo, em Minas Gerais e São Paulo em 2016, a região metropolitana de Campinas em 2017 e a região metropolitana de São Paulo em 2018.

O que é muito diferente de cidades da região norte do país, como Manaus e Belém, onde sobretudo a partir do final dos anos 1980, com a criação do SUS, passamos a atingir níveis elevados de cobertura vacinal. Mesmo com este avanço, o surto atual não significa risco de febre amarela urbana, pois a transmissão de homem para homem, por um outro mosquito (o aedes aegypt) exigiria uma invasão de grandes números de casos humanos de febre amarela nas nossas cidades, como ocorrido com as imigrações do século XVII.

O próprio ciclo de vida dos hospedeiros silvestres é a principal explicação para ocorrência de surtos regulares a quase cada década. As críticas à atual direção do Ministério da Saúde residem no fato de que, já em 2016, alertava-se para expansão em regiões mais populosas, em escala muito maior do que o ocorrido em 2008-2009. O Ministério foi lento em responder em velocidade adequada ao ocorrido em 2016 em Minas e no interior de São Paulo em 2017 e não atentou ao alerta trazido, segundo técnicos da Secretaria Estadual de Saúde no final de 2016 e em 2017, da necessidade da ampliação da cobertura vacinal, sobretudo nas regiões mais expostas na grande São Paulo. Ao contrário, em um arroubo de anúncio propagandístico tão irresponsável como os de setores que provocam uma corrida a vacinação, o próprio Ministro declarou o fim do surto em setembro de 2017.

Mais grave em tudo isso é que somos produtores da vacina, temos a Fiocruz como produtora e fornecedora das doses no serviço público, onde são produzidos por ano mais de sessenta milhões de doses e somos fornecedores mundiais. A falta de decisão antecipada de fornecimento suficiente de novas doses vacinais para ampliação de cobertura em grandes cidades e a lentidão em tomada de uma decisão técnica adequada quando não há vacina suficiente, que é o seu fracionamento, só revela o que pode acontecer quando a direção nacional do SUS está mais preocupada em tomar medidas que administrem o congelamento de recursos por vinte anos da chamada PEC da morte ou o desmonte de políticas que fortaleceram a nossa capacidade tecnológica e produtiva.

A outra face desta crise, no caso da região metropolitana de São Paulo, tem sido atitude do governador e prefeito de São Paulo. A outrora pressa em cobrar ações do governo federal assistida em outros momentos, como no próprio surto fabricado pela imprensa em 2008-2009, inexistiu neste período de aliança Temer-Alckmin-Doria. E o pior: a dupla cortou os gastos relativos as ações de combate ao mosquito transmissor da doença, que ficaram 120 milhões de reais abaixo do previsto para 2017.

No final de 2015, na gestão do prefeito Fernando Haddad, São Paulo antecipou-se ao que poderia ser um grande surto de dengue e chegada de chikungunya e zika na cidade, inovando em ações que inclusive não estavam nacionalmente incorporadas. Contudo, o que se vê agora é a incapacidade da Prefeitura de São Paulo para organizar filas de vacinação ou lentidão para antecipar uma medida técnica correta de fracionamento que poderia ter aliviado toda a tensão.

O alerta do surto veio, e o Ministério da Saúde não tomou medidas enérgicas para o controle da doença. Vivemos o pior surto da febre amarela silvestre da história. E esse é só um dos problemas que está vindo à tona e toma boa parte dos noticiários. O que nos espera para os próximos vinte anos, caso não se reverta a PEC da morte? A dúvida paira, mas a certeza é: mais retrocessos.