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50 anos da passeata que coroou a luta dos 100 mil estudantes

27/06/2018 11:19

Reprodução

Do PT 

A Cinelândia despertou mais cedo naquele 26 de junho de 1968. Cravado no centro do Rio de Janeiro e rodeado por teatros, cinemas, bares e restaurantes, o local que era (e ainda é) o símbolo por excelência da noite carioca dava lugar, há exatos 50 anos, para clima soturno e olhares insurgentes de artistas, intelectuais, músicos eestudantes. Milhares de estudantes. Entre eles, um “velho conhecido” das ruas: o estudante de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (antes Universidade do Brasil) Franklin Martins, uma das vozes fortes da Passeata dos 100 mil.

Maior manifestação popular desde o início da ditadura militar, a Passeata é, segundo Franklin, resultado de sucessivas lutas lideradas por estudantes desde 1º de abril de 1964.  Atos contra a repressão e a perda de direitos já tomavam conta do ambiente nas universidades, mas ainda sem apoio maciço da população. Todos eles, claro, sempre com a violência à espreita. “Os estudantes nunca saíram das ruas. Desde 1964 nós lutávamos por muitas causas que incomodavam o regime. Mas o amadurecimento foi gradual e reorganizado ano após ano. Em 1968, tínhamos em pauta muitas outras lutas e, antes mesmo de junho, nosso enfrentamento já tinha tomado as ruas”, lembra.

A Passeata dos 100 mil, prossegue Franklin, “coroou uma luta que vinha desde o início do regime. O dia 26 de junho de 1968, para nós começou bem antes”, recorda.

Antes, entre outras coisas,  leia-se o dia 20 de junho daquele mesmo ano, hoje conhecido como Sexta-Feira Sangrenta, e que resultou na morte de 28 pessoas durante protesto contra repressão fez o medo tomar conta do ambiente.

Por isso, a ideia de um novo ato poderia não ser uma boa ideia. Mas os líderes estudantis –  entre eles Franklin – decidiram seguir nas ruas. E, em poucas horas, a Cinelândia voltava a ser o lar por excelência das almas rebeldes do Brasil pós- golpe. Além de estudantes, músicos como Caetano Veloso, Gilberto Gil  e Chico Buarque, e intelectuais como Zuenir Ventura e Helio Pellegrino, caminhavam lado a lado com outros 100 mil brasileiros.

“Jamais imaginamos que a passeata tomaria aquela proporção. E a violência estava cada vez mais forte. Lembro de um tiro ter atingido uma vidraça atrás de mim e nunca vou esquecer das cenas de terror que testemunhei durante aquele ano. Mesmo assim,  nos organizamos rápido e a Passeata foi um grande marco na luta estudantil não só no Brasil como no mundo”, prossegue Franklin.

É provável que nem mesmo a polícia esperasse tamanha mobilização e a Passeata estranhamente seguiu sem maiores problemas da Cinelândia até a Assembléia Legislativa, onde cartazes, faixas e discursos inflamados afrontavam as atrocidades do regime. “Abaixo a Ditadura. Poder para o Povo”, lia-se por todas as partes.

Não houve nem tempo para comemorar. Logo após a marcha, o então presidente Costa e Silva convocou os líderes estudantis para uma “conversa” sob a justificativa de que governo e população tinham de chegar a uma trégua. “Obviamente ele nunca cumpriu o que prometeu. Fomos a Brasília em vão e a repressão que já era grande só aumentou”, lamenta.

A luta por liberdade e direitos custou a Franklin dois meses de prisão de meados de outubro até 12 de dezembro, um dia antes da consolidação do Ato Institucional Número 5 (AI-5), o mais duro dos ataques da ditadura às já precárias instâncias democráticas em vigor no Brasil à época. “Aquilo nos atingiu em cheio, mas não houve desânimo, tampouco arrependimento por todas as nossas lutas. Infelizmente, o AI-5 tornou ilegal qualquer manifestação ou greve e violência definitivamente tomou conta do país”.

Durante quase toda a década seguinte, o AI-5 virou o símbolo de uma guerra travada contra todos os brasileiros que não concordavam com o regime. “O Brasil só volta a ver algo com a mesma dimensão a partir de 1977, com as grandes greves, o surgimento de grandes líderes populares como Lula e uma nova onda de manifestações contra a Ditadura”, conclui Martins.

Meio século depois, a Passeata ainda reverbera nas manifestações pela democracia no Brasil. Ou, como define Zuenir Ventura, “1968 nunca terminou”.

Conheça este  outros episódios da luta por democracia no Brasil no Memorial da Democracia , o museu virtual do Instituto Lula.