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Há 64 anos: Argélia será, finalmente, argelina

01/11/2018 12:46

Foto: AP

Na madrugada de 1º de novembro de 1954, um grupo de nove líderes históricos da revolução argelina lançou uma insurreição armada contra o domínio francês: era o início de um longo conflito que perduraria até 1962, libertando a Argélia do domínio imperial. A solução radical foi a única opção viável após fracassarem todos os esforços dos militantes nacionalistas em negociar mais autonomia para o país ou até mesmo uma igualdade civil entre argelinos e colonos, como aconteceu em outras colônias. Foi a partir das recusas de acordos que, em 1954, pequenos grupos nacionalistas se unificaram, deram início à guerra anticolonial e, no ano seguinte, criaram a Frente de Libertação Nacional (FLN), de orientação socialista.

A Argélia estava sob domínio francês desde 1830. Na França, políticos de esquerda e de direita negavam a existência de uma nação argelina e afirmavam a tese de que “a Argélia é a França”. Lá vivia, nos anos 1950, cerca de um milhão de colonos europeus — os chamados “pieds-noirs” (“pés-pretos”). Além de ter sido uma das mais antigas colônias sob o domínio francês, a Argélia era também a mais importante. O interesse dos franceses, que ali mantinham importantes investimentos na agricultura e na mineração, cresceu ainda mais com a descoberta de petróleo e gás natural na região do Saara, durante a década de 1950.

A guerra de libertação, iniciada em 1954, ganhou dimensões internacionais. Nações árabes, socialistas e asiáticas defendiam a independência da Argélia na ONU. Países como o Egito forneciam ajuda militar e financeira à FLN. Enquanto isso, a sociedade francesa se dividiu: setores progressistas defendiam o fim da “guerra suja” contra os rebeldes argelinos, mas o governo da República, pressionado pelos conservadores, aumentava ainda mais os poderes dos generais da guerra colonial — em 1960, o número de combatentes franceses na Argélia havia saltado de 56 mil para 500 mil homens.

A utilização de técnicas de tortura contra os rebeldes, as estratégias de terror psicológico nas vilas do interior e a construção de barreiras eletrificadas nas fronteiras com a Tunísia e o Marrocos demonstravam a disposição francesa em garantir a dominação a qualquer custo. O auge da repressão aconteceu na batalha de Argel, em 1957, na qual os nacionalistas sofreram pesadas baixas, mas deixaram claro que a dominação francesa se tornava cada vez mais inviável.

A luta armada prosseguiu. Como a guerra não dava sinais de se encaminhar para o fim, o alto-comando colonial na Argélia se rebelou em maio de 1958. Os militares causaram uma crise política na França, onde se formou uma nova República, sob a liderança de Charles de Gaulle. No mesmo ano, os rebeldes argelinos formaram um governo provisório no exílio, sob a liderança de Ferhat Abbas.

Pressionado por todos os lados, De Gaulle decidiu negociar com a FLN em 1960 e utilizou pela primeira vez o termo “Argélia argelina”. Marcadas por dificuldades como a atuação terrorista dos colonos europeus por meio da Organização do Exército Secreto (OAS), as negociações resultaram nos acordos de Évian. O cessar-fogo foi declarado, e marcou-se um referendo sobre a questão da autonomia argelina. Em 1º de julho de 1962, 99,7% dos argelinos votaram a favor da independência, e o país se libertou do domínio francês, tornando-se a República Popular da Argélia.

Mais tarde, o país africano se tornaria um reduto para exilados políticos da ditadura militar no Brasil, como o ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, que retornaria ao país após 14 anos de exílio. Ou, também, como um grupo de 40 presos políticos enviados à Argélia em troca do embaixador alemão sequestrado Ehrenfried von Holleben.

A seção África do Memorial da Democracia, o museu virtual do Instituto Lula, apresenta as lutas contra o colonialismo que, entre 1946 e 1964, ganharam impulso em toda o continente africano, acelerando a independência dos povos submetidos ao domínio das potências europeias.