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"Não somos países pobres, somos países empobrecidos"

20/04/2018 16:03

Juíza não autorizou visita do ativista ao ex-presidente Lula / Fotos: Ricardo Stuckert


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Por Jaqueline Deister
Para o Brasil de Fato 

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, o ganhador do Prêmio Nobel da Paz e ativista pelos Direitos Humanos, Adolfo Pérez Esquivel, fala sobre os sucessivos ataques à democracia na América Latina. O argentino destaca que os golpes de Estado atualmente têm uma característica particular: a cumplicidade das instituições e, por isso, podem ser classificados como ‘golpes brandos’.

Esquivel também comenta sobre o crescimento da extrema-direita e a importância da unidade dos países latino-americanos na construção de um projeto econômico que não seja refém do capital estrangeiro.

Confira a íntegra da entrevista:

Brasil de Fato: Esquivel, como você vê todo esse processo que o Brasil está vivenciando hoje? Isso vem desde 2016 com a destituição da presidenta Dilma.

Adolfo Pérez Esquivel: Vejo a democracia em risco, em perigo. Primeiro, porque as pessoas estão perdendo seus direitos como cidadãos. Cada vez mais, aumenta a repressão, o controle social e menos liberdade. Isso tem a ver com a repressão com a militarização do Rio e as ameaças dos chefes militares, de que se Lula não fosse preso, pensavam em um golpe de Estado. Isso é um perigo, um risco para a democracia. A democracia significa direito e igualdade para todos e todas. E hoje isso não existe.  

O que o Lula fez com na área da política pública, nas políticas sociais, de tirar da pobreza mais de 30 milhões de brasileiros e brasileiras é um  único no mundo, ninguém fez isso.  E foi reconhecido pela FAO, pela Nações Unidas, pela OEA, pelo Conselho Europeu. E hoje esse exemplo está sendo aplicado na África, para ver se os países africanos que têm um índice muito alto de pobreza extrema podem, com a metodologia e o trabalho realizado no Brasil, aplicá-lo em suas realidades. A outra coisa  que vemos é que no Brasil aconteceu um golpe de Estado, um golpe de Estado "brando". Antes utilizavam os exércitos, hoje não precisam dos exércitos, precisam da cumplicidade de juízes, deputados e senadores que estão vendidos ao sistema de dominação.

Essa política está sendo aplicada em toda a América Latina, não só no Brasil. Esse golpe foi aplicado em Honduras, no impeachment de Manuel Zelaya, sem provas, tiraram ele da cama, de pijama, e mandaram-o embora do país. Foi aplicado no Paraguai, com Fernando Lugo, aqui no Brasil, com Dilma Rousseff. A primeira foi uma experiência-piloto e depois eles avançaram sobre o governo de Dilma. Naquele momento, eu falei sobre isso, em menos de um minuto, no Senado e disse que estavam dando um golpe de Estado na presidenta Dilma, para criar uma confusão gigantesca. Ou seja, essa é a política para deslegitimar tudo que foi feito, para dizer que tudo que foi feito é ruim. Fizeram isso com Lula, fizeram na Argentina, fazem em muitos lugares, acusando de corrupção. com Lula não há nenhum elemento sério jurídico para condená-lo como estão condenando. É uma suposição dos juízes que Lula é corrupto, por isso que digo que a democracia no Brasil está em perigo. Estão impondo governos autoritários, governos que privilegiam o capital financeiro acima da vida das pessoas. O assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes é uma forma de pressionar e de gerar medo para que as pessoas não atuem.

Esquivel, estamos vendo, presenciando, aqui no Brasil e em outros países da América Latina que acompanhamos, um crescimento de uma extrema direita. Aqui no Brasil observamos um fascismo, uma impossibilidade de diálogo com grupos que pensam diferente da esquerda. Como que você vê esse processo, qual o perigo disso?

Olha, a extrema direita nunca deixou de existir. Sempre esteve aí. E agora estão avançando com essa política, mas tudo isso vem dos Estados Unidos assim como antes, os Estados Unidos impunham os golpes militares e agora impõe esses golpes brandos. Porque o juiz Sergio Moro vai para os Estados Unidos receber instruções do que fazer.  Isto é, não existe coincidência, estamos vendo. Eu trabalho com a América Latina, sobretudo, e vemos isso no México, na Guatemala, em El Salvador, na Colômbia, em Honduras. Em Honduras existe uma violação dos direitos humanos gigantesca. Mataram também uma dirigente que trabalhava com a gente, a Berta Cáceres, uma dirigente indígena ecologista, que defendia as questões do seu povo, relacionados à terra, contra as barragens e foi assassinada. Aconteceu aqui no Brasil e pode acontecer em todas as partes. Essas pessoas não têm sentimento, para alcançar seus objetivos, massacram boa parte do povo. E isso é grave. É grave porque coloca em risco não só a vida, mas as instituições do Estado. Mas há um eixo central no que estou dizendo: as democracias que temos não servem, porque são democracias delegativas, não são democracias participativas.

E dentro da América do Sul, especificamente, qual a importância da unidade da esquerda sul-americana para lidar com esse problema que estamos enfrentando no Brasil, com a arbitrariedade da prisão do ex-presidente Lula?

Tivemos organizações regionais importantes que, neste momento, a direita marginalizou-as, a Unasul, a Celac, o Mercosul, e ainda bem que não avançaram sobre o Banco do Sul.  Ou seja, a ideia de que a economia que possa - essa foi a ideia que teve Hugo Chávez - e que não pode concretizar, a formação do Banco do Sul, porque senão sempre dependemos do sistema bancário internacional, do FMI e do Banco Mundial. E estamos piores, não melhores. Não somos países pobres, mas sim países empobrecidos, não somos pobres. Muitos países africanos têm uma enorme riqueza, mas as empresas transnacionais levam tudo O ouro, o diamante, o petróleo, o aço e os povos são pobres, não têm nada. Então acredito que faltaria esse eixo de uma economia regional própria. Nós dependemos do dólar, mas quem impõe o dólar, quem impõe o Fundo Monetário Internacional? Não são os povos. Nós somos dependentes, não temos soberania. não temos soberania econômica, não temos soberania sobre nossos recursos, somos países dependentes e para isso precisamos repensar o tipo de país que queremos e para quê.

Edição: Raquel Júnia (BDF)