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“Nosso sangue tem DNA guerreiro”, diz jovem indígena pankararu em encontro com Lula

27/10/2017 17:10

Avó de Uaikirê, Dona Benvina recebeu Lula com um ritual de boas-vindas, benção e agradecimento / Mídia Ninja

Por Joana Tavares
Brasil de Fato 

“É importante o Lula passar aqui porque, como é uma área esquecida, dá pra mostrar para a população que aqui também tem uma comunidade indígena, que não é só no Pará, no Amazonas, aqui também tem”, diz Uaikirê Pankararu Pataxó sobre o encontro com o ex-presidente, como parte da Caravana Lula Pelo Brasil

Durante ato no Instituto Federal do Norte de Minas (IFNMG), no dia 25, Uaikirê de 19 anos, entregou ao presidente Lula uma reportagem em vídeo da Agência Pública que denuncia as prisões arbitrárias, trabalho forçado e torturas cometidas pela ditadura contra os indígenas Pankararu (leia mais abaixo).

Uaikirê estuda gestão ambiental no IFNMG e mora na aldeia Cinta Vermelha Jundiba, em Araçuaí, no Médio Jequitinhonha, com outras cinco famílias de parentes.

A jovem escolheu o curso de gestão ambiental porque sabe que a região tem muitos conflitos de terra e problemas de desmatamento e pretende fazer projetos para que os indígenas possam permanecer na região. “Não quero sair, ir para a cidade, quero viver lá, no nosso território, junto dos parentes. Somos poucos, mas a gente resiste”, diz.

Ela, que é bolsista, sabe que estudar é um direito seu, “não esmola”. “A gente quer indígenas e quilombolas nas escolas, nas faculdades, quer ocupar os espaços que são nossos. E aqui é estratégico, o Instituto Federal atende a população inteira, pessoas que não tiveram oportunidade de educação, de formação e estão tendo agora. E é graças ao governo Lula, que trouxe a instituição, que está atendendo de forma benéfica nossa comunidade indígena, os quilombolas. A gente quer diversidade nas escolas”, reforça. 

Sua irmã também estuda no IFNMG e seu irmão só não participou da recepção à caravana porque estava em um protesto pela saúde indígena. 

Uaikirê com sua irmã.

A jovem diz que sofre discriminação, mas não se deixa levar por isso. “Muitas pessoas sofrem preconceito por ter algumas características físicas, mas nosso sangue tem DNA de guerreiro. Nossas tradições estão aí, nossas danças estão aí e isso tudo foi herdado por nossos antepassados, que lutaram muito para que nossa identidade não fosse esquecida, para que fosse resgatada. Eles seguem lutando e nós precisamos mostrar nossa voz e nossa indignação”, ensina. 

Para ela, ser indígena é “ter coragem para enfrentar os desafios diários”. Entre os desafios atuais ela destaca a necessidade de resistir ao governo golpista. “Esse governo ilegítimo está colocando em risco a vida de todo mundo”, alerta.

“Vanguarda invisível da humanidade”

Geralda Soares, a Gêra, trabalhou durante muitos anos no Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e no Cedefes (Centro de Documentação Elói Ferreira da Silva), e segue acompanhando a causa indígena de forma voluntária, agora que está aposentada. 

Ela avalia que a gestão dos presidentes Lula e Dilma em relação aos povos indígenas foi atravessada por conflitos. “Acho que a atuação foi fruto da coalizão com outros grupos. A presença desses setores dentro do governo atrapalhou demais. Belo Monte é uma tragédia”, exemplifica, contando que esteve no Pará recentemente e ficou assustada com a situação do rio Tapajós e o favorecimento ao agronegócio e à mineração. “A gente viu muita violência, muitas ameaças, tanto para os indígenas, como para ambientalistas, trabalhadores rurais e contra o pessoal que mora nas reservas”, critica.

“Acho que agora o projeto de Lula, o nosso projeto, vai ter que ter um destaque especial para a questão indígena. Porque mexer com questão indígena é mexer com mineradora. Aqui na nossa região é mexer com eucalipto… Todos nós, não só os indígenas, estamos ficando sem água”, continua. Gêra sabe que enfrentar os poderes dominantes é difícil, mas destaca que foi com a organização popular na região do Jequitinhonha que foi possível realizar algumas mudanças, inclusive eleger prefeituras progressistas. 

Ela cita um escritor, que dizia que os indígenas são a “vanguarda invisível da humanidade” para defender que todos precisam respeitar a natureza e a Terra, que é preciso cuidar dela, como alertam os indígenas há séculos. “Estou muito esperançosa de que num próximo governo Lula a gente possa ajudar a repensar o modelo de país. Não só esperançosa. Vamos lutar pra isso”, conclui.

Conheça o caso

Um dos indígenas vítimas da ditadura, é o bisavô de Uaikirê, Antônio. Indígena Pankararu de Pernambuco, Antônio incomodou de alguma forma a ditadura militar e acabou sendo preso no Reformatório Agrícola Indígena Krenak, em Resplendor, no Norte de Minas Gerais, na década de 1970. Anos depois, a história do local foi revelada pelo trabalho da Comissão da Verdade, que demonstrou que o reformatório era um centro de tortura, trabalhos forçados e de isolamento dos indígenas delatados pela Funai e pela Polícia Militar. Os motivos seriam dos mais variados, incluindo “vadiagem” e “embriaguez”. 

Após sua prisão, Antônio desapareceu. Uma filha saiu a sua procura e percorreu vários estados até o reencontrar em Minas Gerais. Geralda conta que eles se relacionaram com diversas etnias, foram candangos em Brasília, andaram de barco a vapor em Pirapora e por fim chegaram ao norte de Minas.

Dom Enzo, que era bispo da diocese no início dos anos 1990, soube da saga e doou um terreno para que eles pudessem se assentar. Em 2005, conseguiram mais uma aldeia e parte da tribo hoje mora em Tukaré, poucos quilômetros à frente. 

A equipe do Brasil de Fato está acompanhando minuto a minuto a caravana de Lula em Minas Gerais.

* A cobertura da caravana "Lula pelo Brasil" é realizada por meio da parceria entre Brasil de Fato, Mídia Ninja e Jornalistas Livres

Edição: Mauro Ramos