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Ricardo Carneiro analisa o "crescimento" do PIB

04/09/2017 13:12

Tanto o crescimento da exportação como os efeitos da supersafra perderam força no segundo trimestre. Foto: WikiCommons

Crescimento zero?

A despeito da comemoração do Governo e do Mercado, os números do PIB divulgados na sexta, (1º) ainda indicam uma situação bastante difícil que não assegura inequivocamente, que tenhamos saído da recessão. À primeira vista poder-se-ia pensar que o (de)crescimento está convergindo para zero mas, mesmo esta conclusão é discutível. A começar pelo próprio número do PIB, pois o crescimento de 0,2% do segundo trimestre representa expressiva desaceleração ante o 1% do primeiro trimestre. Porém, há várias outras razões para duvidar de algum otimismo. Tomando os dados de trimestre contra trimestre, dessazonalizados, observa-se: 

a) o único item da demanda com desempenho claramente positivo é o consumo. Mas, seu salto brusco, de 0,0% no trimestre anterior, para 1,4%, sugere a presença de fatores não repetíveis nesta performance provavelmente, a liberação das contas inativas do FGTS.

b) ocorreu uma forte desaceleração do crescimento das exportações, de 5,2% para 0,5%. Curiosamente, este fato não mereceu maiores comentários, nem do IBGE nem dos analistas

c) investimento continua em declínio à taxa similar nos últimos três trimestres.

d) o impacto da supersafra já se desvaneceu e o crescimento da agricultura caiu de 11,6% para 0%.

e) na Indústria, o pequeno crescimento da extrativa contrasta com a estagnação da transformação e a queda recorrente da construção

f) nos serviços, o único crescimento significativo é o do comércio, certamente associado ao do consumo. Há forte desaceleração em transporte e na informação e estabilidade ou declínios nos demais itens.

Tudo isto computado, a dúvida quanto ao crescimento zero se magnifica. É claro que o Governo procura desesperadamente, apresentar algum resultado positivo que o ajude a se livrar do imbróglio no qual está metido. Já o mercado está ansioso por resultados que comprovem a sua tese de que reformas e expectativas movem a economia. Todavia, é necessário esperar para ver mais claro se mesmo este desempenho pífio se confirma. Para tanto, convém observar com mais cuidado nos próximos meses a trajetória do Consumo e do crédito a ele destinado, bem como do comércio exterior. Do ponto de vista da oferta, a chave estará no comportamento da indústria manufatureira e da construção.

Clique aqui para acessar os dados completos no site do IBGE.

Texto publicado originalmente no Facebook do economista Ricardo Carneiro

Ricardo Carneiro é professor do Instituto de Economia da Unicamp.