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Barbárie em Altamira expõe impunidade de massacres

20/05/2022 16:05

José Marcelino de Sousa, da Associação de Moradores da Reserva Extrativista do Rio Iriri, foi morto a tiros dentro de casa

Ao menos 12 pessoas morreram nas últimas duas semanas na cidade de Altamira, no Pará. Entre as vítimas, José Marcelino de Sousa, que trabalhava na Associação de Moradores da Reserva Extrativista do Rio Iriri (Amoreri), e teria sido morto a tiros dentro de sua residência.

Com quatro tiros, mãe e filha foram assassinadas na calçada de casa, no último dia 10. Dias depois, quatro pessoas foram executadas em um bar da cidade, após dois homens se aproximarem do local e efetuarem os disparos. No início de maio, o dono de uma barbearia também foi assassinado a tiros. 

O mês de maio também está sendo marcado pela segunda chacina mais letal da história do Rio de Janeiro, ocorrida no último dia 24 na Vila Cruzeiro, durante uma operação policial. Até agora, 25 pessoas morreram. A chacina está atrás apenas do massacre do Jacarezinho, ocorrido em maio de 2021, com um saldo de 28 mortos.

O que todas as mortes têm em comum? A característica de execução e traços brutais de um massacre, em mais uma das muitas chacinas que se repetem na história do Brasil. 

É alarmante no país o índice de assassinatos em massa no meio urbano e, sobretudo, no meio rural, envolvendo crianças, mulheres, indígenas, camponeses e trabalhadores sem qualquer ligação com a criminalidade. Além da brutalidade, as chacinas geralmente vêm acompanhadas de grande impunidade, com dezenas de assassinos desfrutando da liberdade sem qualquer privação. 

O Memorial da Democracia, museu virtual do Instituto Lula, possui em seu acervo um mapa dos massacres e chacinas pelo país. Seja nos estados do Pará, Rondônia, Mato Grosso, São Paulo, Rio de Janeiro ou Rio Grande do Sul, os crimes carregam entre si um grande número de pessoas mortas simultaneamente ou em um curto prazo de tempo e, principalmente, a presença da impunidade.


Relembre as principais chacinas ao longo dos últimos anos no Brasil:


PARÁ

Massacre de São Bonifácio [1973]

Insatisfeitos com as condições de trabalho de Serra Pelada, mais de mil garimpeiros protestaram bloqueando o acesso à Ponte Mista de Marabá. A Polícia Militar do Pará e o Exército brasileiro cercaram os garimpeiros e atiraram com metralhadoras e fuzis. As pessoas se jogaram do vão de 76 metros da ponte, nove mortes foram confirmadas e dezenas de trabalhadores desapareceram. Ninguém foi acusado pelos crimes.

Massacre de Eldorado dos Carajás [Abril de 1996]

Mais de 1.500 trabalhadores rurais sem terra marcharam até a rodovia BR 155 – que liga Belém ao sul do Estado – em protesto contra a demora de desapropriação das terras da Fazenda Macaxeira. Mais de 155 policiais militares atiraram contra os manifestantes, assassinaram 19 trabalhadores rurais e feriram inúmeros outros. Foram acusados155 policiais do Pará, incluindo os comandantes das operações. 

RONDÔNIA

Massacre de Corumbiara [Agosto de 1995]

Mais de 600 trabalhadores sem terra ocuparam a Fazenda Santa Elina, alegando que se tratava de um latifúndio improdutivo. Durante a madrugada, 119 pessoas, entre soldados da Polícia Militar com os rostos cobertos e pistoleiros armados, recrutados em fazendas da região, invadiram o acampamento e assassinaram 12 pessoas, entre elas uma criança. O número de mortos, segundo os sem terra, foi bem maior. Em torno de cem trabalhadores rurais teriam sido executados. Seus corpos foram escondidos. 

MATO GROSSO

Massacre de Matupá [Novembro de 1990]

Ivacir Garcia, Arci Garcia e Osvaldo José invadiram uma residência para praticar um assalto e fizeram de reféns as três moradoras da casa. Quando a Polícia Militar chegou ao local, os bandidos se entregaram. Entretanto, mesmo após a rendição, eles foram capturados por moradores da região, levados para a praça principal da cidade, espancados e queimados vivos. Os assassinatos foram filmados por um cinegrafista e o caso ficou conhecido mundialmente, com imagens de extrema violência.

SÃO PAULO

Massacre do Carandiru [Agosto de 1993]

Mais de 100 policiais entraram na cadeia sob o comando do coronel Ubiratan Guimarães, com a justificativa de conter uma rebelião. Presos foram espancados, esfaqueados e executados por rajadas de metralhadoras. Durante a operação, 111 detentos foram assassinados e os sobreviventes feridos foram obrigados a suplicar por suas vidas enquanto recebiam socos, chutes e facadas dos policiais. 120 policiais militares foram acusados, além do oficial que os comandava.

RIO DE JANEIRO

Chacina de Vigário Geral [Outubro de 1992]

Mais de 30 homens encapuzados, entre civis e militares, entraram na comunidade de Vigário Geral para vingar a morte de militares assassinados por traficantes e executaram a sangue frio 21 pessoas sem qualquer ligação com a criminalidade. Trabalhadores, estudantes, donas de casa, pais e mães de família foram assassinados sem qualquer distinção pelos policiais.


Chacina da Candelária [Julho de 1993]

Dois carros pararam em frente da Igreja da Candelária, no centro do Rio de Janeiro. Os ocupantes do veículo desceram atirando contra dezenas de meninos em situação de rua que dormiam no local. Oito jovens foram assassinados e várias crianças ficaram feridas.

RIO GRANDE DO SUL

Massacre na Fazenda de Santa Elmira [1989]

O então governador do RS, Pedro Simon, com o apoio dos grandes proprietários de terra da União Democrática Ruralista (UDR), ordenou despejo de mais de 500 famílias do MST acampadas na Fazenda Santa Elmira. Pequenos aviões jogaram nos camponeses gás lacrimogênio e agrotóxicos, deixando-os desorientados, intoxicando e matando 6 crianças. Ao final da operação, 19 agricultores haviam sido assassinados por arma de fogo, 400 pessoas ficaram feridas e 22 foram presos. Ninguém foi acusado pelos crimes.