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Cartas a Lula: injeção de ânimo nos 580 dias de prisão

03/06/2022 20:21

Foto: Ricardo Stuckert

Espetáculo no Tuca reuniu artistas e políticos para ler algumas das mais de 25 mil cartas enviadas a Lula, 46 delas agora publicadas em livro lançado pela Boitempo

Por Claudia Motta

São Paulo – Mais de 25 mil cartas foram enviadas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante os 580 dias da prisão política, em que permaneceu isolado numa cela da Polícia Federal, em Curitiba (PR). Em comum a todas essas missivas, a emoção e o sentimento de gratidão, a solidariedade de quem não se conformava em ver preso, e fora da disputa eleitoral de 2018, o presidente que mudou para melhor a vida de milhões de brasileiros. Conhecer o conteúdo dessas cartas, é mergulhar na história recente de um país de mais de 500 anos que pela primeira vez, durante as governos petistas, viveu uma guinada no sentido da inclusão social. Assim, o livro Querido Lula: cartas a um presidente na prisão (Boitempo Editorial), lançado na noite desta terça-feira (31), no teatro Tuca, em São Paulo, traz, mais do que cartas, o relato de um tempo. 

“São histórias de vida, milhões de vidas revolucionadas pela esperança que Lula encarnou e pelas políticas públicas implementadas pelo seu governo e da presidenta Dilma Rousseff”, disse a organizadora do livro, a pesquisadora Maud Chirio. “E escritas num tom de intimidade que só é possível porque Lula é gente da gente. Numa sociedade profundamente desigual, Lula continua do lado do povo.”

E assim como muita gente no teatro, o ex-presidente chorou várias vezes ao ouvir pela voz de artistas e políticos como Fernando Haddad e Dilma Rousseff, os depoimentos contidos em 21 das 46 cartas incluídas no livro. Alguns dos autores das missivas também foram convidados a participar da apresentação feita em formato de teatro e com música ao vivo. 

“Quando eu recebia uma carta dessa era uma injeção de ânimo”, contou Lula. “Significava que valia a pena passar por aquele sacrifício. Que minha narrativa era verdadeira e a deles era mentirosa.”

Pacto respeitado

Maud Chirio lembrou que essa “história extraordinária” das cartas escritas a Lula por pessoas de todas as cidades do Brasil e de vários outros países do mundo, começou por um pacto estabelecido em abril de 2018. Antes de ser preso, ainda no ato ecumênico realizado no Sindicato dos Metalúrgicos, no ABC paulista, o ex-presidente pediu para ser representado por milhões de Lula. “O envio de cartas é a prova de que seu pedido foi ouvido. Nenhum líder jamais suscitou tal resistência”, afirmou a pesquisadora, destacando o papel do Instituto Lula, que recebia e organizava as cartas. “Nada teria sido possível sem Calinka Lacort e Claudia Troiano”, funcionárias do Instituto.

Da imensa diversidade entre as missivas, avalia ela, a emoção une a todas. “Essa emoção nasce de uma esperança comum de que esse mundo perdido que as cartas contam, vire nosso mundo de novo”, resumiu Maud Chirio.

“O tempo vai passando e a gente pensa que já sentiu todas as emoções que um ser humano pode sentir, que apreendeu tudo e a gente descobre que a cada dia a gente renasce, a gente renova”, disse um Lula tocado pela grandeza de sentimentos expostos naquelas leituras. “Nunca imaginei que ao aceitar ir para a Polícia Federal eu fosse chegar e encontrar centenas de pessoas brigando contra os fascistas do Bolsonaro que estavam me aguardando. Não conheço precedente na história de um povo tão resiliente”, afirmou sobre os milhares de homens e mulheres que se revezaram durante os dias de sua prisão, na Vigília Lula Livre. “Muita gente importante já foi presa, mas nunca tinha acontecido de pessoas durante 580 dias gritarem de manhã, de tarde, de noite, bom dia, boa tarde, boa noite, presidente Lula. Cantar música. Natal, Ano Novo, cortar bolo no aniversário.”

Povo consciente contra o fascismo

O ex-presidente contou que durante seus 580 dias de prisão foi aumentando a consciência de que iria derrotar seus inimigos. “A razão para o impeachment de Dilma e porque me prenderam ficou mais clara para mim.”

Livre e inocentado das acusações feitas contra ele pela Operação Lava Jato, Lula disse estar muito animado, no que classificou ser um “momento primoroso” de sua vida. “E é por conta de vocês. Nunca me senti tão bem. Na vida pessoal, na minha relação política, porque parece que o povo finalmente tomou consciência de que temos de derrotar o fascismo e restabelecer a democracia nesse país.” 

E avisou. “Estou mais consciente, mais maduro, consciente de que é possível fazer mais do que eu fiz, estou mais esperto do que eu era”, disse. “Embora nós fizemos a maior política de inclusão social, muita coisa demoramos pra fazer porque burocratas diziam que não era possível. Acha que se a gente voltar, a gente vai fazer muito mais. Colocar mais jovens pra estudar, por exemplo, não é opção, é necessidade desse país. Nenhum país conseguiu ser soberano sem investir na educação. Ignorância não gera estadista, gera um Bolsonaro.”

Lula foi novamente às lágrimas ao falar da sua luta contra a fome. “Volto a disputar uma eleição porque minha indignação é maior que 20 anos atrás. Temos obrigação de ficar indignados quando vemos mulheres, crianças, dormindo ao relento. Não podemos encarar isso como normal”, ressaltou. 

“Sou do tempo em que se acreditava que homem não chora, mas como é gostoso colocar pra fora, em lágrimas, um sentimento que se tem”, disse Lula, ao agradecer a solidariedade de quem esteve ao seu lado durante tempos tão difíceis. “Um país que tem um povo com sentimento de solidariedade de vocês, a gente não pode ter medo de nada. Vamos juntos derrotar o fascismo e recuperar a democracia.”

As cartas

Além da participação de Haddad e Dilma, as cartas foram lidas por Zélia Duncan, Cleo, Celso Frateschi, Grace Passô, Erika Hilton, Deborah Duboc, Leandro Santos, Camila Pitanga, Denise Fraga, Cida Moreira, Tulipa Ruiz, Cassia Damasceno, Preta Ferreira, Clara Bastos, Ana Rodrigues. 

O evento dirigido pelo brasileiro Márcio Abreu e o francês Thomas Quillardet, contou ainda com uma surpresa. A socióloga Rosângela Silva, a Janja, leu trechos de duas das mais de 580 cartas que trocou com o marido enquanto ele esteve preso em Curitiba. “Cem dias longe de você. Cem dias sem teus beijos, seus abraços, sem o som da sua risada, sem o calor do seu corpo, sem o seu prazer, sem o nosso futebol, nossa cervejinha. Cem dias sem ouvir eu te amo, sem a sua voz. Cem dias de muita saudade, tristeza, mas de muita força, resistência e amor que se fortaleceu e nos uniu mais. Nossos corações batem em um só ritmo. Cem dias para te amar cada vez mais. Cem beijos.” 

Leia algumas frases das cartas contidas no livro que tem prefácio do rapper Emicida e orelhas escritas pela linguista Conceição Evaristo. 

“Nós queremos o nosso artilheiro em campo. Meu querido amigo, meu pensamento e meu coração estão nesta sala com você, 24 horas por dia. Sou um simples pedreiro que trabalha nos dias que tem serviço. Pois desde que você saiu do governo caiu 45% o valor da mão de obra.”

“Hoje tenho um teto para morar. Todo dia quando acordo tenho pão para comer. Tenho um curso superior concluído graças aos programas de inclusão de vocês, do PT. Enquanto eu tiver forças, vou lutar para te defender. Tenho certeza que o senhor é forte e vai sair mais forte do que entrou. Só tenho a agradecer por não desistir do Brasil, de nós, de mim.”

“Seguimos firmes, com fé na vida, fé no homem, fé no que virá. Espero que essa carta chegue às suas mãos. Aguente firme aí que a gente segura as pontas aqui.”

“Não sei se você imagina como é que a dor (da prisão de Lula) dói em nós. É uma dor diferente, porque não é uma dor pessoal. É uma dor coletiva por uma ferida coletiva. É uma dor da categoria que sinto quando vejo adolescentes nos sinais de trânsito, lavando vidros dos carros da gente. Quando penso que não tem coisa boa lhes esperando. Quando vejo um velhinho na fila do supermercado comprando carne de terceira ou umas duas salsichas. 

Lula obrigada. Do mesmo jeito que somos Lulas aos milhões, estamos, milhões, dentro desse lugar onde aprisionaram seu corpo. Resistamos. Fique forte. Não fique triste. Não adoeça. E peço aos céus que nos deixe adoecer no teu lugar, se for o caso.”

“Seus programas e da presidenta Dilma devolveram ou desenvolveram nos meus meninos a vontade de se tornar doutor. Esse projeto não acabou, acaba de sofrer um revés. E devemos honrá-lo todos os dias.” 

“Papai morreu em julho de 2014 e foi ele quem me ensinou a gostar de você. Na verdade ele não fez muita força não. Meu pai sempre fez questão de enfatizar que a vida que a gente levava era exceção. Meu sonho era que virasse regra.  Com você vi começar a se desenhar o país que a gente sonhou.”

“Somos sublimes porque sonhamos para além da miséria que nos dão como destino.”

“A gente não se conhece mas eu já te devo muita coisa. Minha mãe é minha inspiração e você é a inspiração dela.”

“Moro a cerca de dois quilômetros de onde o senhor se encontra, numa obra do PAC 1. Minha mãe conseguiu essa casa depois de anos de espera na fila da Cohab. Tudo que tenho é graças ao seu olhar de grande estadista e sobretudo seu olhar humano. O ódio pelo senhor vem daqueles que se deixaram guiar pela irracionalidade e pelo medo. O que muita gente chama de esmola, chamo de dignidade.” 

“Meu filho, se quiser ir vá, mas saiba que não posso te ajudar”, disse meu pai. E sacou dez reais do bolso. Era tudo que ele podia me dar. Minha mãe nunca se sentava à mesa com a gente e só comia o que tivesse sobrado. Nunca reclamava da vida e ainda conseguia ser amável com todos. Associo seu cárcere político a essa ausência de minha mãe à mesa.”

“Sou um sobrevivente. A fome também e professora. Ou se serve a elite ou se serve ao povo. Fizeste tua escolha e pagaste o mais alto preço. Mas resistência é luta. Sou um homem negro e poderia estar no seu lugar. Pra nós isso é rotina. Resignação também é luta. Numa estrutura que segue reproduzindo a casa grande e a senzala, um negro não pode ousar. A história há de resgatar usa dignidade e sua força. Confio que que pela vontade soberana do povo, a justiça será feita.”

“O que vai salvar essa nação é a união dos povos. Um dia tudo isso que esta acontecendo será lido nos livros de história. Não serei eu a me fingir de morta enquanto a injustiça bate a nossa porta.”