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Violência política foi alimentada por campanha de ódio

21/09/2022 14:56

Reprodução

Desde o golpe de 2016, passando pela campanha eleitoral de 2018, a violência política só se agravou

Por Cláudia Motta

Há quatro anos, em 2018, Lula realizava sua Caravana pelo Sul. Durante nove dias do mês de março a caravana cruzou, em três ônibus, os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Do início ao fim a viagem foi marcada por atos de violência praticados por lavajatistas e apoiadores do discurso de Jair Bolsonaro. Os ataques, graves, incluíram tiros que chegaram a atingir um dos ônibus da caravana e marcaram uma mudança inédita na política brasileira.

Golpe e "desdemocratização" alimentaram violência política no Brasil 

Era o auge da Operação Lava Jato e da campanha diária na imprensa contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores. Se hoje as informações da Vaza Jato e outras revelações desmascararam as motivações políticas dos acusadores de Lula, naquela época a operação ainda gozava de credibilidade. Em ano eleitoral, houve até quem parabenizasse a violência dos ataques.


No entanto, durante a caravana pelo Sul, uma mulher e dois idosos foram apedrejados na cabeça, uma militante foi chicoteada na rua e os ônibus foram atacados com paus, pedras e ovos em diversas situações. A irracionalidade foi tanta, que um ônibus lotado de passageiros da empresa Catarinense foi depredado em plena rodovia por agressores que confundiram o veículo comercial com o transporte que levava o ex-presidente.


Apesar disso, houve até parlamentares, como a então senadora gaúcha Ana Amélia, que subiram no palanque para parabenizar os ataques à caravana (posteriormente, a senadora disse que se tratou de "força de expressão"). Parte da imprensa também normalizou a onda de violência. Exemplo disso foi a jornalista Vera Magalhães, hoje perseguida pelos bolsonaristas, que à época classificou o ataque à caravana como algo que sempre fez parte da política. Com esse tipo de apoio, rompeu-se a fronteira entre a disputa política aceitável e a violência gratuita. Algo que pode afetar a todos.

Escalada do fascismo

Em reportagem da CUT, à época, o professor de Ciência Política na Universidade Federal da Paraíba Rodrigo Freire observava que os grupos responsáveis pelos ataques à caravana na região sul do país eram formados por pessoas privilegiadas, ricas, de classe média alta e fazendeiros, alimentados por esse ódio diariamente via mídia comercial. “Com esse estímulo, abriu-se a caixa de Pandora e veio o ovo da serpente”, disse. Para a democracia brasileira, explica, a caixa de Pandora foi o golpe. E os golpistas não conseguiram controlar o ódio que se transformou nessa escalada do fascismo.

Hoje, reforça ele, estamos vivendo um nível de violência política nunca visto na sociedade brasileira. “As pessoas estão com medo de manifestar publicamente suas opções, salvo os eleitores de Bolsonaro. Então é muito sintomático que apenas um lado da disputa eleitoral tenha medo, justamente porque o outro lado é o violento, que estima a violência como arma política, como é próprio do fascismo. A mentira, a violência são elementos dessa cultura política fascista que Bolsonaro representa e com a qual se identifica.”

Violência bolsonarista

Para a jornalista Eliara Santana, é preciso situar dois pontos principais nesse cenário geral da influência midiática no acirramento da violência política, ou por motivações políticas, como estamos observando nestas eleições em 2022. “O primeiro aspecto refere-se à naturalização que a mídia tradicional hegemônica fez do candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro, ainda em 2018. E claro, de todos os que o apoiavam e do modus operandi violento desses grupos”, lembra a pesquisadora. “Quando ele disse, por exemplo, que ia metralhar petistas, quando se criou um clima tão tenso que era proibido – simbolicamente – usar vermelho nas ruas, e quem o fazia podia ser agredido, quando se tolerou ataques misóginos e machistas a uma presidenta mulher, e tudo isso foi tolerado ou amenizado, passou-se um recibo de que tudo estava correto e que isso fazia parte de um processo democrático. Não era nada democrático, e estamos agora vendo do que que realmente se trata.”

Rodrigo Freire reforça que em 2018 já era muito claro como Bolsonaro representava essa questão da violência política. “E no segundo turno infelizmente nem todos conseguiram perceber isso e aí mais uma vez o papel da grande imprensa merece ser ressaltado”, disse. “Bolsonaro representa um conjunto de práticas de setores de uma cultura política muito violenta que tem ligação direta com esse passado que não passa, com a ditadura militar como ele coloca de maneira mais evidente elogiando o tempo todo tortura, dizendo que matou-se pouco, que deveria ter-se fuzilado Fernando Henrique (o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso), metralhar os petralhas”, lembra.

O professor paraibano vê o bolsonarismo dentro da tradição do fascismo e da ultra-direita autoritária brasileira. “Quando você nota o lema Deus, Pátria e Família, é um lema do integralismo lá da década de 1930. Então, não tem como não associar Bolsonaro e o bolsonarismo a essa tradição de violência política no Brasil que sempre teve como foco sobretudo as classes populares, os trabalhadores, a esquerda e os movimentos sociais. Não à toa, portanto, é violenta. E acredito que precisa ser contida sob pena, de numa eventual reeleição, esse cenário de violência se agravar ainda mais, o que é intolerável na democracia.”

Não é polarização

E não se trata de polarização. Somente um lado usa ameaças, ataques, violência que coloca em risco a vida de todos, avaliam os especialistas.

“É no mínimo desonesto a mídia tratar como equivalentes dois atores políticos absolutamente distintos”, afirma a jornalista Eliara Santana, doutora em Linguística e pesquisadora do Observatório das Eleições. “Um incentiva uso de arma, diz que vai exterminar o oponente, fala em banir do país os petistas, incita a violência e facilita o porte de arma. Então, não há polarização cabível nesse sentido. E é desonesto tratar como tal porque isso gera a percepção, para parte da população, de que os dois estão no mesmo campo democrático. E não estão.”

A polarização, explica a cientista política Tathiana Chicarino, acontece sempre no caso de disputas para o caso majoritário. “Entre PT e PSDB foi muito tempo assim. Mas o que a gente tem hoje não é uma polarização, é o extremismo de um lado e o campo democrático de outro”, diz a professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Para o Rodrigo Freire esse discurso de que existe uma polarização entre dois iguais, um de esquerda e um de direita, é absolutamente falso. “Temos uma candidatura progressista com um amplo arco de alianças que têm um ponto em comum: a defesa da democracia. E o outro lado é uma candidatura claramente fascista. Bolsonaro é uma personalidade fascista que está aliado com setores retrógrados, violentos da sociedade brasileira, inclusive dos militares.”

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