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Lula e Jean: política, esquerda e o líder ‘tóxico’

12/06/2020 10:07

Foto: Ricardo Stuckert

Por Vitor Nuzzi, da Rede Brasil Atual

Em uma conversa que muitas vezes resvalou mais para o lado pessoal do que político, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Jean Wyllys conversaram via Instagram na tarde de ontem (10), a convite do ex-deputado, sobre as transformações no cenário brasileiro. O ex-parlamentar pelo Psol decidiu deixar o país depois de receber ameaças e recear o mesmo destino que a vereadora carioca Marielle Franco, colega de partido, assassinada em 2018. Lula explicou sua decisão de não conceder entrevista ao jornal O Globo e voltou a criticar o ex-juiz e agora também ex-ministro Sergio Moro.

Os dois usaram camisas vermelhas. Lula chamou o ex-deputado de “inovador”, enquanto Jean destacou as transformações que o país teve durante seus governos. “O exercício da democracia está no reconhecimento das diferenças”, disse o ex-presidente.

Boa parte da conversa foi sobre a política externa brasileira no governo Lula, liderada pelo ex-chanceler Celso Amorim. O Brasil construiu “relações internacionais poderosas”, disse Jean, citando os Brics e a imagem sólida consolidada naquele período.

Fórum Social x Davos

Lula lembrou que, em janeiro de 2003, no início de seu primeiro mandato, discursou tanto no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, como no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), blocos antagônicos. “Eu conversava com o Celso Amorim que nós tínhamos de mudar a geografia política do mundo. Não era possível as Nações Unidas terem a mesma estrutura em 2003 (em relação à criação da ONU, em 1945, após a 2ª Guerra Mundial).

“Eu achava que era possível mudar isso”, prosseguiu Lula. “Primeiro, fortalecer o Mercosul e mandar a Alca embora. Criar uma instituição multilateral na América do Sul (Unasul), na América Latina (Celac). Eu não desrespeitava os Estados Unidos. Um chefe de Estado não tem que gostar das pessoas, tem que lidar com outro chefe de Estado, pensando numa relação que seja boa para os dois países. (O Unasul) não era um bloco anti-americano, era pró América do Sul.”

O ex-presidente cita um exemplo de comércio internacional. Segundo ele, quando assumiu, as transações com a Argentina somavam US$ 7 bilhões. Ao deixar o governo, US$ 39 bilhões. Lula lamentou a postura do atual governo de manter uma relação de animosidade com o país vizinho. “Tem muita ignorância nessa decisão”, afirmou.

Israel e Palestina

Jean Wyllys observou que os dois têm posição semelhante em relação ao Oriente Médio. “Defendemos a existência de Estados autônomos, que se respeitem”, disse, referindo-se a Israel e Palestina e lembrando que ambos abominam o antissemitismo. Mas, apesar disso, sentiu tratamento diferente dentro do próprio campo progressista.

“Eu fui duramente atacado pela esquerda, cara, por ter essa postura”, queixou-se Jean, lembrando do fato de ser homossexual. “Setores da esquerda fizeram uma campanha difamatória contra mim, por fazer palestra em Israel, na Universidade Hebraica. Acho que você foi poupado das críticas por ser homem heterossexual”, disse a Lula, que apontou a existência de “incompreensão em vários setores da esquerda”.

O ex-presidente observou que seu governo defendia a existência tanto de ambos os estados, judeu e palestino. “Fui na Palestina inaugurar uma rua chamada Brasil, fui no parlamento de Israel fazer discurso em defesa do Estado da Palestina e pela paz no Oriente Médio. Se você não coloca todos os que têm adversidade numa mesa de negociação, você não quer a paz. Por isso, trabalhamos muito para mudar o Conselho de Segurança da ONU”, afirmou.

Racismo estrutural

Jean lamenta que a Presidência seja ocupada atualmente por um “sujeito tóxico, racista, que tem postura de vassalagem em relação ao Trump”. Citou o levante nos Estados Unidos, após a morte de George Floyd por um policial, um movimento que para ele remete à luta pelos direitos civis. E observou que, apesar de políticas de promoção da igualdade feitas no governo Lula, o Brasil segue tendo um racismo “estrutural, sistêmico”. “E me parece que há uma dificuldade da esquerda de colocar o racismo como elemento central da desigualdade”, aponta.

Lula lembrou da tentativa de mudar o currículo educacional. “Tentamos incluir um currículo oficial na educação básica, a obrigatoriedade de história e cultura afro-brasileira. A gente só vai mudar isso (racismo) quando começar a ensinar a história africana na escola brasileira.”

Ambos lembraram ainda, da escolha de Joaquim Barbosa para o Supremo Tribunal Federal, primeiro ministro negro no STF. O ex-presidente citou dado do IBGE segundo o qual pela primeira vez pretos e pardos (classificação usada pelo instituto) se tornaram maioria no ensino superior público. E identificou represálias por causa dessas políticas inclusivas.

“Golpe social”

“Acho que essas coisas motivaram uma raiva contra a Dilma. Desde aquela época (do impeachment), antes de ser preso, eu tinha noção de que aquele processo era para mim. Acho que foi um golpe social contra a inclusão do povo negro e do povo pobre. Eu não tinha noção da perversidade da elite brasileira.” Em seguida, ressaltou a “dignidade e decência” do então deputado Jean Wyllys em seu discurso contra o impeachment, em 2016.

Logo em seguida, Lula comentou a decisão de negar pedido de entrevista feito pelo jornal O Globo. “Não posso dar entrevista enquanto as Organizações Globo não pedirem desculpas pela mentiras que contaram a meu respeito. Não posso fingir que não aconteceu nada comigo (…) Tentaram destruir a minha biografia. E não vão conseguir. Não tenho raiva, tenho caráter.” 

O ex-deputado do Psol defendeu o direito de Lula não assinar manifesto de frente ampla “que ignora os trabalhadores e as políticas neoliberais que estão atacando os direitos dos trabalhadores e vulnerabilizando as pessoas”. Em relação à imprensa, mesmo manifestando respeito ao veículo, afirmou que muitas vezes as Organizações Globo “trabalharam no limite da fake news contra você e contra o PT”.

Lula disse que não queria “polemizar” a respeito do manifesto, que segundo ele não trazia críticas diretas a Bolsonaro e nem fazia menção ao impeachment. Procurou não se estender sobre o assunto, concentrando-se sobre o comportamento da imprensa tradicional, que teria ignorado as denúncias da chamada Vaza Jato, feitas pelo Intercept, mas sempre garantiu espaço ao ex-juiz da Operação Lava Jato. “O Moro nunca se comportou como juiz do meu caso, mas como canalha, mentiroso, algoz. Como é que eu posso respeitar um homem desse? As pessoas me ofendem, invadem a casa do meu filho (…) Pra mim, não passou.”

Ele encerrou sua participação falando de direitos humanos. Lembrou que conversava com o jurista Hélio Bicudo, então no PT, que o tema não poderia ser visto apenas como uma questão de presos políticos, por exemplo. Deveria incluir temas como a fome e a educação. “Não tem maior violência aos direitos humanos do que uma pessoa não ter o que comer, o que estudar.”

“Três vidas negras”

Jean Wyllys dedicou a live a João Pedro Matos Pinto, de 14 anos, garoto morto recentemente no Rio de Janeiro, Miguel Otávio Silva, de 5 anos, que morreu ao cair do nono andar de um prédio em Recife, e Gabriel Rodrigues, ativista de 19 anos que morreu há dois dias. “Três vidas negras que se foram cedo.”

Edição: Helder Lima (RBA)