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Lula recebe título de doutor honoris causa pela Universidade de Aquino, na Bolívia


Só no app: Daniel Cara discute rumos da educação, hoje, 16h

Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu nesta quarta-feira (21), o título de doutor honoris causa da Universidade de Aquino Bolívia - Unabol, em Santa Cruz de la Sierra. "Levo com muito carinho esse título para o Brasil."

O ex-presidente lembrou da aproximação entre os dois países no seu governo e no da presidenta Dilma Rousseff e ressaltou a importância da integração regional no campo da educação e da cultura.

A Unabol tem cerca de cinco mil estudantes brasileiros, que lotaram o auditório da universidade. A instituição aprovou por unanimidade a outorga da máxima distinção de doutor honoris causa em educação para Luiz Inácio Lula da Silva.

O presidente da Universidade, Dr. Matin Dockweiler Cárdenas, ao conceder o título, lembrou que o governo Lula reduziu a mortalidade infantil e combateu a pobreza no Brasil.

O ex-presidente lembrou dos preconceitos da elite brasileira, que tratava os pobres como um problema sem solução. "Quando têm oportunidades, os pobres são a parte essencial das soluções". Ele também afirmou que o pobre, antes do seu governo, só entrava na universidade brasileira como objeto de estudo. "Democratizar nossas universidades foi um dos mais importantes desafios do meu governo". Citou realizações como a ampliação das vagas nas universidades federais, a abertura de 14 novas universidades, o Prouni e o FIES, que permitiram que o Brasil duplicasse o número de estudantes universitários, passando de 3,5 milhões em 2003 para 7 milhões em 2013.

Com a aprovação, no governo Dilma, da destinação dos royalties do pré-sal para educação, Lula disse que o Brasil poderá avançar ainda mais rápido para tirar o atraso secular do país no campo da educação.

Leia a íntegra do discurso do ex-presidente:

UNIVERSIDAD DE AQUINO, BOLIVIA – UDABOL

É uma grande honra receber o maior reconhecimento acadêmico da Universidade de Aquino Bolívia. Tenho consciência de que esta homenagem é o reconhecimento das conquistas do povo do meu país nos últimos anos, na busca do desenvolvimento com justiça social.

Por isso, quero compartilhar este título com o povo brasileiro, que decidiu tomar o destino em suas mãos e está construindo um novo país, mais fraterno e menos desigual, mais voltado para a amizade com os povos irmãos da América do Sul.

Esse título pertence especialmente aos brasileiros mais pobres, que estão conquistando a cidadania e o direito de viver com dignidade.

Recebo esta distinção num país que, na última década, estreitou de forma significativa seus laços de irmandade com o Brasil.

Durante meu governo e, hoje, durante o governo da Presidenta Dilma Rousseff, junto com o Presidente Evo Morales, o Estado Plurinacional da Bolívia e o Brasil se tornaram mais próximos, construindo um vínculo de cooperação e respeito que deveria ter sido a base das nossas relações desde sempre.

Bolívia e Brasil transformaram-se significativamente, construindo políticas de inclusão e desenvolvimento que estão permitindo reverter uma herança de injustiça e desigualdade.

Compartilho com o Presidente Evo Morales não só a mesma origem popular, senão também o mesmo sonho, a mesma obsessão de tornar nossas sociedades mais igualitárias e democráticas.

Compartilhamos o compromisso de tornar irmãs nossas nações.

Sabemos que o futuro dos nossos países depende da nossa capacidade de consolidar políticas de integração regional que ampliem os intercâmbios comerciais e econômicos. E consolidar também a união fraterna dos nossos povos no campo da educação, da cultura e da promoção da cidadania.

A presença numerosa de estudantes universitários brasileiros na Bolívia, assim como de trabalhadores bolivianos no Brasil, constitui um exemplo concreto de como é importante valorizar e aprofundar a dimensão social da integração em nosso continente.

Acordos como o de Residência, em nível regional permitem às pessoas buscar oportunidades de estudo e de emprego onde elas e encontram.

A UDABOL é exemplo de instituição que vê o mundo além das fronteiras nacionais. Sei que está contribuindo decididamente na preparação do encontro de chefes de Estado do G77, que se realizará em junho próximo sob a presidência do Estado Plurinacional da Bolívia.
Será uma ocasião muito importante para discutirmos o futuro de nossos países, e a construção de uma nova ordem global, mais democrática e mais justa.

Nossos países e o processo de integração ganham muito com Universidades engajadas e comprometidas com a agenda política, social, cultural e internacional.

É gratificante ver as portas da Universidade se abrirem para os grandes assuntos da geopolítica mundial, dos debates e embates pela ampliação da democracia, pela construção de um novo multilateralismo.

Quero destacar também que aqui na UDABOL estudaram e estudam centenas de jovens brasileiros que buscam ampliar suas oportunidades profissionais em diferentes campos do conhecimento.

Parabéns, mais uma vez, à comunidade acadêmica da UDABOL, pelo trabalho realizado, e muito obrigado por contribuir com a boa formação da juventude brasileira.

Magnífico Reitor, meus amigos e minhas amigas,

Quando assumi a Presidência da República, em janeiro de 2003, era portador do desejo de mudança da sociedade brasileira. Diante dessa responsabilidade disse que deveríamos começar fazendo o necessário, para depois fazer o possível e, quando nos déssemos conta, estaríamos fazendo o que parecia impossível.

Começamos pelo compromisso de acabar com a fome no país. Não havia causa mais urgente nem mais simbólica da transformação social que o Brasil exigia.

Criamos o programa Fome Zero e, em seguida, o Bolsa Família, que hoje é indicado pela ONU e outras instituições internacionais como exemplo de política de transferência de renda.

Além de garantir uma renda mensal a 14 milhões de famílias, o Bolsa Família vem proporcionando excelentes melhorias nos indicadores de Educação e Saúde.

Valorizamos os salários e ampliamos o acesso ao crédito para os trabalhadores, para as empresas, para a habitação e para a agricultura familiar.

Com mais renda, mais salário e mais crédito, as pessoas puderam comprar mais, despertando o potencial do nosso mercado interno.

A produção aumentou e também os investimentos; gerando novos empregos, num ciclo virtuoso de crescimento sustentado, em benefício de todos.

Garantimos os fundamentos da estabilidade econômica e ampliamos as relações diplomáticas e comerciais com os vizinhos da América Latina, com a África, os países árabes e os grandes países emergentes.

O mais importante resultado desse esforço coletivo é que 36 milhões de brasileiros saíram da pobreza extrema, 42 milhões alcançaram a classe média e mais de 20 milhões de empregos foram criados nesses 11 anos.

Milhões de brasileiros, que estavam à margem do processo econômico e social, conquistaram a cidadania. Mas não foi uma tarefa simples.

Tivemos de enfrentar o preconceito de elites que governaram o país por tantos séculos, de costas para as necessidades da maioria da população.

Tratavam os pobres como um problema sem solução. Nosso povo demonstrou que, quando têm oportunidade, os pobres são a parte essencial das soluções.

Aconteceu no Brasil o que está acontecendo na Bolívia, desde que o povo deste país tomou também o destino nas mãos.

As transformações sociais e os avanços alcançados pela Bolívia enchem de orgulho e esperança os países irmãos latino-americanos.

Magnífico reitor, meus amigos e minhas amigas

Libertar-se de um ciclo histórico de desigualdade e injustiça é apenas o primeiro passo. Temos um longo caminho pela frente e muitos desafios a superar.

O desafio maior é garantir a educação das crianças e jovens, para que tenham um futuro melhor, com as oportunidades que foram negadas a seus pais e avós.

Uma mãe pobre nunca tem muitos bens materiais que deixar como herança para seus filhos. Mas estará muito feliz se puder deixar como herança a oportunidade de ter acesso à escola, de ter acesso à universidade.

Por isso nos empenhamos tanto, no meu governo e no governo da presidenta Dilma, para dar um salto de qualidade no ensino público brasileiro.

O Brasil foi o último país da América Latina a se tornar independente; o último a abolir a escravidão. Também, foi a último a ter universidades. Nossa primeira universidade é de 1930. Foi criada quase 300 anos depois que a primeira universidade boliviana: a Universidade Maior de São Francisco Xavier, fundada em 1624.

Na longa historia da universidade na Bolívia, destaca-se o papel fundamental que ela exerceu no processo da independência do país, sendo o cenário do Primeiro Grito Libertário da America Latina: a Revolução de Chuquisaca, em maio de 1809.

A universidade foi um dos berços dos processos revolucionários independentistas na Bolívia, na Argentina, no Peru, no México. Mas não, no Brasil.

Na universidade brasileira a pobreza só entrava como objeto de estudo. Muitos desses estudos deram contribuição relevante para a luta social, mas era preciso que os pobres entrassem na Universidade como alunos, como cidadãos de pleno direito.

Democratizar nossas universidades foi um dos mais importantes desafios do meu governo. Uma tarefa que colocou em evidência que a democracia cresce e se amplia quando crescem e se ampliam as oportunidades dos mais pobres.

Basta oferecer uma, apenas uma oportunidade aos mais pobres, e veremos como eles são capazes de derrubar os imensos muros e barreiras que limitam, frustram e se antepõem aos seus sonhos.

Nestes 11 anos, triplicamos o orçamento federal para a educação, abrimos 18 universidades federais e 146 novos campi, oferecendo oportunidades aos jovens do interior do país.

Democratizamos o acesso ao ensino superior com um sistema de cotas para negros, indígenas e jovens de famílias pobres. Ampliamos de 12 para 18 o número de alunos por professor na universidade pública.

O governo criou o PROUNI, um sistema de bolsas de estudo nas universidades particulares, em troca da isenção de impostos, que abriu portas para 1 milhão e 400 mil alunos de famílias pobres.

Enfrentamos o problema do financiamento estudantil com o FIES, um programa em que o Estado é o fiador dos empréstimos. Mais de 1 milhão e meio de alunos financiam seus estudos pelo FIES.

Dessa forma, duplicamos para 7 milhões o número de estudantes nas universidades públicas e particulares.

Nosso Plano Nacional de Educação contempla todos os setores, da creche à pós-graduação, do ensino técnico à alfabetização. Tudo é prioridade em se tratando de educação.

Abrimos em 11 anos 365 escolas técnicas, o que representa duas vezes e meia tudo o que foi feito no século passado.

A presidenta Dilma criou o PRONATEC, em parceria com as organizações empresariais, que está qualificando 6 milhões de trabalhadores.

Aumentamos de oito para nove anos o tempo de estudo no ensino fundamental, e estamos trabalhando para que todas as crianças estudem em tempo integral.

Introduzimos a realização de Olimpíadas de Matemática, Língua Portuguesa e Ciências na escola pública, despertando o interesse de milhões de alunos.

Para garantir a continuidade de todo o esforço que fazemos pelo ensino, aprovamos no Congresso a lei que destina à Educação 75% dos royalties do petróleo produzido no país.

Quero acrescentar que uma de nossas primeiras medidas no campo da Educação foi adotar o estudo do idioma Espanhol como segunda língua no currículo escolar do Brasil.

E quero recordar que um dos melhores momentos que vivi, como presidente do Brasil, foi quando inauguramos a Universidade da Integração Latino-Americana, a UNILA, no ano de 2009.

Localizada em Foz do Iguaçu, na tríplice fronteira de Brasil, Paraguai e Argentina, a UNILA congrega professores e alunos de todo o continente na construção de conhecimento comum sobre nossa realidade.

Estamos formando ali uma geração de jovens conscientes da nossa identidade, capazes de pensar nossos desafios de um ponto de vista latino-americano.

Inciativas como esta são fundamentais no esforço de integração regional. Avançamos muito com a consolidação do Mercosul, a criação da Unasul e da Celac. Avançamos com a Alba.

Para dar uma ideia dos resultados desse esforço, o comércio do Brasil com o Mercosul, nesses 11 anos, passou de US$ 10 Bilhões para US$ 50 bilhões. O fluxo com os vizinhos da América do Sul passou de US$ 15 bilhões para US$ 70 bilhões.

O comércio intrarregional entre os países da América dos Sul é da ordem de US$ 137 bilhões.

Avançaremos muito mais -- e não apenas na questão comercial -- na medida em que os cidadãos de cada um de nossos países passarem a pensar e agir como cidadãos latino-americanos.

Magnífico reitor, meus amigos, minhas amigas,

No Brasil, temos apreendido que a democracia deve ser um valor inquebrantável, um pilar de liberdade e de progresso sobre o qual edificar nosso futuro. Mas também temos apreendido que a democracia deve ser muito mais que um sistema de normas e procedimentos eleitorais. A democracia deve se sustentar em políticas públicas promotoras da justiça social, na ampliação efetiva de uma esfera de direitos sociais e humanos que garantam o exercício de uma cidadania plena.

Construir e promover a justiça social é a melhor forma de construir e promover a democracia. A educação, sem dúvida nenhuma, é a melhor forma de fazê-lo.

A educação é um direito humano e, numa sociedade democrática, o conhecimento deve ser considerado e respeitado como um bem comum.

Levarei com muito carinho esse título para o Brasil. Agradeço à UDABOL e a toda sua comunidade acadêmica.

Permitam que eu me sinta, a partir de hoje, muito mais perto do coração de todos os bolivianos e bolivianas. De todos vocês, com quem compartilho o sonho, a utopia possível de uma América Latina mais unida, mais democrática, mais justa e solidária.

Muito obrigado.