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Quatro mulheres e a busca diária por igualdade

09/03/2020 10:50

Foto: CSBH/FPA

Por Gabriella Gualberto, para a Fundação Perseu Abramo

O Dia Internacional da Mulher ou Dia Internacional de Luta das Mulheres é marcado pela luta das mulheres por meio de manifestações, greves, comitês por seus direitos e igualdade. Mas é no dia a dia que se dá a busca por uma sociedade mais justa e com igualdade. E determinadas mulheres foram necessárias para dar voz a todas as outras.

O Centro Sérgio Buarque de Holanda preserva em seu acervo documentos históricos que ajudam a contar a história de luta das mulheres brasileiras pelo olhar de companheiras históricas do Partido dos Trabalhadores. Veja abaixo:

Entrevista da então deputada Luci Choinacki ao Jornal Brasil Agora nº 10 de março de 1992:

Luci Choinacki, a primeira deputada de origem camponesa no Congresso Nacional, iniciou as atividades políticas na Pastoral da Terra, depois se integrou ao Movimento dos Sem-Terra no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Descanso (SC). Foi eleita deputada estadual pelo PT em 1986 e deputada federal em 1990. Nesta entrevista ela fala sobre como ser uma mulher em espaços historicamente masculinos.
“Recebi telefonemas para dizer menos coisas na imprensa, propostas por debaixo dos bastidores pra gente m udar de posição. E como única deputada do PT, eu tinha que assumir a liderança do partido, sem nem saber como é que funcionava. Era a única mulher no meio de 40 deputados, única que não tinha diploma debaixo do braço, única que não tinha experiência política. Os caras apostavam: ‘vamos ver quanto tempo ela dura, vai ver dinheiro, vai modificar, damos seis meses de prazo’. Isso lá dentro da Assembléia. Eu percebia tudo, e decidi: ‘vocês vão conhecer com quem estão lidando’.”

Entrevista com a deputada federal Benedita da Silva ao Jornal Brasil Agora nº 11 de abril de 1992:

Benedita da Silva, a primeira mulher negra a ter assento no Congresso Nacional, iniciou sua trajetória na Associação de Favelas do Estado do Rio de Janeiro. Moradora do morro Chapéu Mangueira, Benedita construiu sua vida pública envolvida nas lutas em favor das comunidades pobres do Rio de Janeiro. Em 1982 foi eleita a primeira vereadora do PT e em 1986 1986 foi eleita deputada federal em reconhecimento do trabalho em defesa da mulher, da igualdade racial, da trabalhadora doméstica, das minorias, dos direitos humanos e das comunidades faveladas. Nesta entrevista que leva o título “A favelada que está deputada”, Benedita fala sobre como é ser uma mulher negra e favelada no Congresso Nacional.
“Porque eu sempre morei no morro do Chapéu Mangueira. Eu estou acabando de falar em cultura e sou uma pessoa que vai fazer 50 anos, que sempre viveu e trabalhou ali, e tem o objetivo de ajudar no crescimento de toda aquela comunidade. Eu não sou deputada, eu estou deputada. Eu sou uma favelada, sim. E claro que há o favelado A, B e C e eu me enquadro no que podemos chamar de favelado A, mas eu estou lá. Eu não quero que todos sejam favelados, quero que as pessoas tenham condições de crescer e morar onde quiserem.”

Texto de Ângela Borba “Incomodar é preciso” sobre os 30 por cento de presença de mulheres na Direção do PT ao Jornal Brasil Agora nº 43 de agosto de 1993:

Ângela Borba na década de 1970 entrou para o movimento de mulheres Brasil Mulher e foi uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores. Ângela elaborou muitos trabalhos sobre os rumos do feminismo no Brasil e foi membro do conselho da Fundação Perseu Abramo. Faleceu em 1998 em decorrência de um aneurisma cerebral. No texto “Incomodar é preciso” ela fala sobre a importância das mulheres nos cargos de direção do PT.
“Incomoda gente que acha poder prescindir do olhar feminino na elaboração de programas de governo e de soluções para problemas brasileiros. Incomoda quem acha que as mulheres competentes nunca são discriminadas. Para quem acha que o machismo é uma mera invenção de mulheres mal amadas, incomoda muito mais.”

Entrevista com a economista Maria da Conceição Tavares no Jornal Brasil Agora nº 71 de julho de 1995:

Maria da Conceição Tavares nasceu em Portugal e veio para o Brasil para fugir da ditadura em seu país. Formou-se em economia para a UFRJ e dedicou sua vida por justiça social. Nas suas próprias palavras: “Quando saí de Portugal, os problemas lá eram democracia, humanismo, terror. Já no Brasil, eram injustiça social, o atraso e a presença do imperialismo”. Entre 68 e 72, na ditadura militar, exilou-se no Chile, onde trabalhou no ministério da Economia, durante o governo de Salvador Allende. Conhecida como uma militante da causa democrática, se filiou ao PT e foi eleita em 1994. Nesta entrevista, ela denuncia o desmonte do governo FHC.
“O grau de estrago e de desmonte pode ser muito grande. Eu, muitas vezes acordo de madrugada, na hora do lobo, e penso: ‘Mas não é possível, eu cheguei ao Brasil em 54 e nunca vi isso’. Nós temos dois desafios. Um é de longo prazo: como juntar os cacos que este governo vai deixar? Dois: como resistir agora, este ano, ao desmonte. Para essa resistência eu faço aliança com o diabo, nego. A nossa obrigação é resistir ao desmonte físico do aparelho produtivo.”