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Lula ao DIE ZEIT: Quero lutar por mais redistribuição

20/03/2020 20:39

Em Berlim, Lula participa de ato em defesa da democracia brasileira / Foto: Ricardo Stuckert

No início do mês, Lula esteve na Europa para uma série de eventos e encontros com personalidades internacionais. Em sua passagem pela Alemanha, o ex-presidente concedeu uma entrevista ao jornal alemão DIET ZEIT. 

Confira abaixo a matéria, publicada originalmente no DIE ZEIT impresso e traduzida livremente pelo Instituto Lula.

Instruções para a luta de classes

O ex-presidente brasileiro Lula da Silva viaja pela Europa - como um guia para os social-democratas desanimados. Um dèja-vu

Por Thomas Fischermann

Ele encontrou com o papa, esteve com o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy e discutiu com o economista de esquerda Thomas Piketty. Luiz Inácio da Silva, presidente do Brasil de 2003 a 2011, entrou na sala de conferências de um hotel de Berlim no início da semana passada. Ele quer dar uma entrevista ao DIE ZEIT, dá um tapa caloroso nos jornalistas no ombro para cumprimentá-los no estilo brasileiro.

"Estou aqui porque quero transformar a desigualdade entre ricos e pobres um grande tema", assim que se senta, Da Silva explica o propósito de sua missão. A riqueza do mundo está concentrada em poucas mãos! Ao mesmo tempo, bilhões de pessoas não têm nem o suficiente para comer! Partidos, movimentos e sindicatos de esquerda precisam unir forças para lutar, "caso contrário, perderemos o que conquistamos no século XX".

Não são pensamentos incomuns para um político de esquerda, mas Da Silva embarcou em uma viagem à Europa para conversar sobre essas questões com políticos próximos a ele ​​e intelectuais: em Roma, Paris, Genebra e, a convite do Friedrich-Ebert-Stiftung, em Berlim. "O presidente também se encontrou hoje os principais políticos do SPD", disse a porta-voz da imprensa de Da Silva antes da entrevista. O ex-candidato a chanceler do SPD, Martin Schulz, viria mais tarde. De manhã, houve conversas com parlamentares do Partido de Esquerda (Die LINKE). "Os social-democratas estão todos tão deprimidos aqui", completou a porta-voz, acrescentando que o presidente lhes deu um pouco de espírito de luta.

Exatamente por que ele escolheu essa viagem deixa "Lula", como é chamado no Brasil, no vago.

Alguns acham surpreendente que o ex-presidente de 74 anos possa viajar: ele estava na prisão até novembro de 2019. Em 2018, dois tribunais o sentenciaram a quase dez anos de prisão por corrupção. Houve muitas críticas a esse processo porque as evidências eram escassas, o processo e a condenação foram acelerados e a questão era politicamente sensível. Lula era candidato e estava prestes a ser eleito novamente presidente de seu país. Com Lula na prisão, seu arqui-inimigo Jair Bolsonaro, um ex-capitão de extrema direita, ganhou.

Hoje Lula da Silva é sem dúvida o político mais controverso em seu próprio país. Seus apoiadores o consideram uma pessoa politicamente perseguida que foi silenciado por juízes com politicamente motivados. Para seus opositores, Lula é o epítome da corrupção política: pois ele próprio foi condenado porque foi politicamente responsável por uma era cheia de escândalos de corrupção. Os adversários de Lula dificilmente conseguem superar o fato de que o homem hoje anda livremente. De acordo com uma decisão do mais alto tribunal, no entanto, ele pode fazê-lo até que todas as opções de apelação estejam esgotadas - e o próprio Lula espera que ele seja absolvido.

ZEIT: Por que a esquerda europeia deve ouvir seus conselhos agora? Ou os conselhos da América Latina em geral? O PT tinha grandes sonhos de transformar a sociedade em direção a mais justiça social no início do milênio.

Da Silva: Não, o Partido dos Trabalhadores não sonhava grandes sonhos na época. Se você ouvir meus discursos daquela época, notará: sempre fui cuidadoso, meus sonhos sempre foram com o pé no chão.

ZEIT: Você, afinal de contas, foi eleito em 2003 para combater a fome, para acabar com a pobreza e criar mais justiça.

Da Silva: Eu disse: Se no final do meu mandato todos os brasileiros puderem comer três refeições por dia, o sonho da minha vida se tornará realidade. De fato, é claro que fizemos muito mais.

ZEIT: Exatamente, naquela época mais de 20 milhões de ex-pobres subiram para uma classe média modesta, pelo menos temporariamente. Por algum tempo, Lula pareceu pegar os ricos e dar aos pobres.

Da Silva: Não, meu governo nunca redistribuiu a riqueza. Naquele momento, simplesmente conseguimos permitir que mais pessoas participassem da economia. E de repente os próprios pobres contribuíram para o crescimento, tornaram-se consumidores, isso criou mais empregos e o bolo ficou maior para todos. Naquela época eu nunca disse pra ninguém: Abra mão da sua fortuna!

O ex-presidente está certo, e esse é o seu dilema. O início do milênio foi um período extraordinariamente favorável para a economia brasileira. A economia global estava estável, a moeda brasileira havia sido fortalecida por uma reforma corajosa do antecessor de Lula, Fernando Henrique Cardoso, e a China avidamente comprava minérios e soja ao redor do mundo. O Brasil poderia entregar ambos, então a economia estava crescendo e os tesouros nacional estava cada vez mais cheio. O político de esquerda Da Silva aproveitou a oportunidade para montar um programa social após o outro e investir muito na infraestrutura das regiões pobres do país.

Ele mal teve que tomar decisões difíceis. Havia o suficiente para todos. Lula mal enfrentou as camadas ricas do país, até fingiu ser "camarada dos patrões". Mas após a crise financeira global em 2008, o modelo atingiu seus limites. A partir de 2013, o país passou por uma recessão de longo prazo, o bolo não ficou maior, mas menor. A sucessora escolhida por Lula, Dilma Rousseff, teve que tomar decisões difíceis. Ela lançou programas de austeridade. Muitos pobres que estavam melhor no governo Lula ficaram novamente sem nada.

Da Silva invoca a boa e velha luta de classes

E em 2020, em Berlim, Lula da Silva agora diz esta frase: "Estou aqui para lutar por mais redistribuição". Surpreendente, porque é uma frase que pode-se dizer que contêm autocrítica. A esquerda facilitou demais na época? Teria que reprimir fortemente no Brasil, por exemplo, reformar o sistema tributário e taxar grandes fortunas para que os pobres também pudessem desfrutar de uma prosperidade duradoura? Lula é mais radical do que antes?

Da Silva: Ah, não virei mais radical. Eu só quero fazer esse debate.

ZEIT: Seu país é um exemplo impressionante de como é difícil redistribuir algo na prática política. A resistência da classe média e das elites é sempre tremenda quando se trata de seus privilégios

Da Silva: Essas atitudes da classe média são um fenômeno mundial

ZEIT: Um político está agora sentado no palácio presidencial de Brasília, chamando qualquer tipo de social-democracia de "coisa do diabo". E mesmo muitas pessoas pobres votaram em Jair Bolsonaro, apesar de terem pessoalmente se beneficiado mais com políticas de esquerda. Como você planeja fazer um discurso sobre redistribuição?

Da Silva: Infelizmente, as pessoas pobres em particular geralmente acreditam na conversa que as pessoas mais ricas espalham na televisão. Lá eles ouvem que o Estado é o verdadeiro problema de nossos dias. Que ele gasta muito dinheiro, que paga demais às pessoas e assim por diante. Na realidade, existem interesses completamente diferentes por trás disso.

ZEIT: E como você acha que os políticos de esquerda podem ganhar essa discussão?

Da Silva: Simplesmente liderando essa discussão - de novo e de novo, todos os dias. Se você acredita em algo, precisa defender seu ponto com determinação.

ZEIT: Muitos brasileiros perderam essa crença por causa da realidade econômica. Eles pensaram que o milagre econômico dos anos Lula continuariam para sempre, mas depois perderam o emprego, a prosperidade e os sonhos.

Da Silva: Não é apenas uma realidade econômica. Houve uma crise como muitas crises anteriores. Mas ela não foi combatida corretamente. É por isso que você tem políticos: para combater crises. Precisamos de políticos que sejam determinados o suficiente. Gente que acredita que, com um Estado forte, você pode agir com firmeza.

Poucas horas depois, em um salão de baile em Berlim-Kreuzberg, Lula da Silva sobe ao palco. O evento é intitulado "Lula em Berlim", o público canta "Lula! Lula!". Centenas de brasileiros do exterior e de de várias cidades alemãs viajaram para lá. Alguns vestiram camisetas e bonés vermelhos de “Lula Livre", os políticos berlinenses do SPD e do Partido de Esquerda (Die LINKE) estão na primeira fila.

Eles são fascinados por esse político profissional latino-americano que veio porque ele deseja aconselhá-los – mesmo que o conteúdo de suas idéias não seja tão original. Mesmo que os grandes anos da esquerda latino-americana tenham ocorrido há muito tempo e a própria história de Lula esteja agora manchada por escândalos de corrupção.

Mas o rosto do ex-presidente ainda está vermelho de indignação, como nos melhores dias em que ele rotineiramente falava enraivecido. Ele encontra imagens e palavras poderosas, indignadas com as injustiças no Brasil e no mundo. Ele invoca a boa e velha luta de classes. Há pessoas em sua terra natal que estão chateadas com o fato de os trabalhadores domésticos comuns poderem pagar algo de bom em seu país por causa de sua política social-democrata!

Claramente são menos os argumentos  e mais essa capacidade de se apaixonar pela questão social que Lula da Silva quer transmitir aos seus camaradas aqui da Europa. Seu plano é fazer muitas viagens nos próximos anos, diz ele. Enquanto seu julgamento ainda estiver em andamento e ele puder deixar o Brasil livremente.

Lula também concedeu entrevista ao portal ZEIT ONLINE, que você pode conferir neste link.