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O combate ao avanço da extrema-direita na Argentina

Encontro promovido pelo Instituto Lula debateu a situação política atual do país vizinho e estratégias de enfrentamento à extrema direita no nosso continente


O combate ao avanço da extrema-direita na Argentina

Seminário 'O cenário político na Argentina: aprendizado e perspectivas'. Foto: Elineudo Meira (Chokito)

Nesta terça-feira (25), o Instituto Lula promoveu, em São Paulo, o seminário 'O cenário político na Argentina: aprendizado e perspectivas'. O propósito do encontro foi discutir o quadro político, econômico e social da Argentina e, a partir disso, buscar construir estratégias para o campo democrático no enfrentamento à extrema direita no nosso continente.


O debate contou com a participação do senador e diretor do Instituto Patria, Oscar Parrilli; da senadora Anabel Fernández Sagasti e da diretora da Unión Obrera Metalúrgica da Argentina, María Soledad Calle.  Do Instituto Lula participaram os diretores Ana Flávia Marques, Paulo Okamotto, Wellington Damasceno e a presidenta Ivone Silva. 


Em sua fala de abertura, Paulo Okamotto ressaltou a importância de se discutir como o campo progressista está trabalhando a questão do combate à onda conservadora que invade não só a América Latina, mas também todo o mundo. 


"Se a gente analisar a Argentina de 30, 40 anos atrás, era uma potência econômica. Um dos povos mais politizados do nosso continente. Teve uma organização sindical e popular muito forte e uma grande trajetória política de esquerda aqui na América Latina. Mas, agora, enfrentam o presidente Milei – assim como nós também enfrentamos, recentemente, um adversário que tem muito do Milei. Por isso é importante, no caso dos argentinos e dos brasileiros, entender como é que estamos nos organizando para enfrentar essa onda terrível, conservadora, fascista, que ocorre aqui na nossa América do Sul e na América Latina", destacou Okamotto. 


O diretor do Instituto Lula, Paulo Okamotto interage com o senador Oscar Parrilli. Foto Elineudo Meira (Chokito)


América Latina: A pátria grande


Antes de iniciar sua exposição, o senador e presidente do Instituto Patria, Oscar Parrilli, deu de presente para o Instituto Lula o livro 'Tenemos Patria, Tenemos Proyecto, Somos Futuro'. "Quero deixar-vos este livro e mostrar-vos esta foto, porque é verdade que estamos em tempos difíceis, mas isso pode ser conseguido novamente. E acho que esse é o objetivo que temos que ter: 12 presidentes juntos, com uma irmandade e com uma concepção do que deve ser feito em cada um dos países da América Latina."



Senador Oscar Parrilli mostra foto, de 2010, com todos os presidentes progressistas de países da América Latina reunidos. Foto: Elineudo Meira (Chokito)


O senador frisou que a  luta dos povos pela construção de sociedades mais justas, mais dignas e igualitárias quase sempre não tem um caminho pavimentado, e às vezes enfrenta momentos que podem levar as pessoas, especialmente os jovens, a duvidar se vale a pena travar essa luta. "Quero te dizer que depois dos anos e da experiência na militância que tenho, vale a pena, não tenha dúvidas", atestou Parrilli. 


"É claro que existem caminhos ocultos, é claro que existem dificuldades, existem avanços e retrocessos e existem caminhos que às vezes são difíceis de percorrer. Nem todo momento é como o mostrado nessa foto. Mas se você olhar para a história, foram necessários 200 anos para que essa foto fosse possível. Porque não há nenhuma foto na história da América Latina que tenha mostrado em um determinado momento tantos presidentes com concepções semelhantes, iguais e caminhando na mesma direção."  


A rua real e a rua digital


A vitória de Javier Milei, na Argentina, assim como aconteceu nas eleições de 2018 no Brasil, se deve em grande parte à forma como as redes sociais foram exploradas por sua campanha. 


"Sabemos que as ferramentas digitais são importantes, mas ainda não as utilizamos da forma correta. Eu chamo isso de rua digital. Nós temos a rua real e eles têm a rua digital. Perdemos lá por 10 a zero", analisou a senadora Anabel Fernández Sagasti.  


E nesta rua digital eles conseguiram conquistar sobretudo os jovens, apontou a senadora. "Dão aos jovens mensagens inacabadas, simples, com memes, com caricaturas e com todos os elementos que não sabemos usar".  


A senadora Anabel Fernández Sagasti, a diretora da Unión Obrera Metalúrgica da Argentina, María Soledad Calle e a diretora do Instituto Lula, Ana Flávia Marques. Foto: Elineudo Meira (Chokito)


Insatisfação democrática


Para além das redes sociais, Anabel refletiu sobre o que considerou o ponto mais importante: atualmente, na Argentina, a esquerda está sem uma mensagem de esperança. As ​​democracias do mundo começaram a não dar respostas aos cidadãos e nem garantir seus direitos básicos, como educação, saúde e segurança. 


"Para mim, tem a ver com o que Cristina [Kirchner] chama de insatisfação democrática. Hoje o que falta é a democracia como sistema de representação, para que você possa viver melhor e sonhar que seus filhos poderão viver um pouco melhor que você. No caso da Argentina, não creio que as pessoas tenham se tornado de direita. Acho que elas procuraram uma alternativa diferente para tudo o que vinha acontecendo há muitos anos, principalmente nos últimos oito anos, que não melhorou a vida delas, em muitos casos até piorou. Elas tentaram alguém totalmente diferente da política tradicional", observou a senadora.


Enfraquecimento do movimento sindical


María Soledad Calle, que representa a Unión Obrera Metalúrgica da Argentina, apresentou alguns números da realidade sindical argentina nos últimos anos.


Em 2015, os trabalhadores mecânicos membros do sindicato eram 250 mil, e recebiam um salário médio de 2.400 dólares. Em 2019, depois de quatro anos de governo Macri, o sindicato passou de 250 mil para 170 mil associados, e o salário desvalorizou para 800 dólares. 


"Depois, nos quatro anos do nosso governo recuperamos os 250 mil associados, mas só recuperamos 100, 150 dólares de salários, dependendo dos setores. E esse foi o nosso grande fracasso, a ausência de políticas de redistribuição, o que nos impossibilitou de cumprir o contrato social que dizia que iríamos viver melhor", explicou María Soledad Calle. Para ela, o grande desafio é retomar as bandeiras de luta da esquerda, "porque parece que temos vergonha de defender utopias ou de criar novas utopias, também roubaram sem dúvida o nosso vocabulário". 


"Nesta perda de discurso, temos vergonha de falar de igualdade, temos vergonha de dizer que uma sociedade cada vez mais desigual não pode ser uma sociedade livre. E penso que é aí que residem as nossas fragilidades, mas também o caminho que deve ser trilhado rumo a essa nova formação de um projeto político em que voltaremos a acreditar, e no qual as utopias correm no limite do que é possível rumo à inclusão social, rumo à igualdade."  


Um mundo em conflito


Vivemos num mundo em conflito: diante de guerras, desemprego, miséria, a sociedade está com medo. E todas essas crises se alimentam desse medo, explica Soledad: "porque tenho medo, sou mais individualista, quero me salvar sozinha e também não acredito em ninguém".


E assim a extrema-direita inventa seus inimigos: o feminismo, o comunismo, a imigração etc. 


"Eles assumem um governo e a primeira coisa que fazem é promover leis que retiram direitos trabalhistas e impedem a organização sindical. Eles têm muito claro que o principal inimigo na discussão entre capital e trabalho é o movimento organizado." 


"Portanto, o movimento reorganizado é o bastião central da resistência contra os processos que estamos a viver", concluiu Soledad.


A ternura como um gesto revolucionário


A senadora Anabel Fernández Sagasti e o diretor do Instituto Lula, Paulo Okamotto. Foto: Elineudo Meira (Chokito)


"Diante de um panorama de crueldade – porque a forma de exercer o governo da extrema-direita é a crueldade – eles não tentam persuadir, convencer, atrair, eles tentam eliminar, excluir, criar o caos", definiu a senadora Anabel Fernández. E concluiu:


"Pensando em qual deve ser o outro lado da crueldade, entendo que a ternura tem que ser o outro lado. Em outras palavras, a antítese, o antônimo da crueldade é a ternura. E temos que, com ternura, apelar às gerações que se desencantaram com os nossos projetos políticos, porque viveram um mau governo ou por qualquer motivo, e fazê-las voltar a apaixonar-se pela esperança e pela solidariedade. 


Neste momento da América Latina, ser solidário, organizar, pensar coletivamente e agir com ternura e empatia é revolucionário!"  


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