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Washington Post: médicos cubanos fazem falta

12/04/2020 18:43

Reportagem do Washington Post afirma que médicos cubanos poderiam estar fazendo a diferença no combate ao coronavírus na América Latina. Foto: Ministério da Saúde/Divulgação

Um dos mais influentes jornais dos Estados Unidos afirma que os aliados de Trump na América Latina retiraram profissionais de Cuba por pressão da Casa Branca. Agora, muitos discutem se os ‘herois’ da medicina não deveriam voltar aos países para ajudar a combater a pandemia do coronavírus

Da Redação do pt.org.br, a partir do ‘Washington Post’.

O jornal ‘Washington Post’, um dos principais e mais influentes veículos da imprensa dos Estados Unidos, publicou reportagem na sexta-feira (10) apontando que os médicos cubanos poderiam estar fazendo a diferença no combate ao coronavírus na América Latina. Países como o Brasil, Equador e Bolívia dispensaram os profissionais de saúde de Cuba que estavam atuando em seus países, mas estão fazendo falta no atendimento às suas populações.

“O Equador é apenas um dos aliados dos EUA que caiu no passo com a política de tolerância zero da administração Trump com Cuba, pondo fim a acordos que permitiam atender clínicas e hospitais dos Andes até a Amazônia com milhares de médicos e enfermeiros treinados pelo estado comunista”, aponta o jornal.

“Agora, esse país e os vizinhos sul-americanos Brasil e Bolívia estão lutando para lidar com os surtos de coronavírus que assolaram os hospitais e, no Equador, deixam corpos nas ruas”, aponta a reportagem de Anthony Faiola e Kimberley Brown. “O aumento de casos e mortes, que deve subir nas próximas semanas, tem levado partidários a discutir uma questão altamente politizada: esses médicos e enfermeiras poderiam agora salvar vidas?”

“Quando eles saíram, não havia especialistas para substituí-los”, disse Ricardo Ramírez, médico aposentado da cidade de Guayaquil, no Equador, e chefe da Comissão Anticorrupção regional ao ‘Washington Post’. “É um fator importante porque não podemos fornecer uma resposta adequada ao vírus agora”, aponta.

O jornal americano lembra que o Brasil – “o maior país da América Latina” – recebeu 8.500 médicos cubanos sob o governo da presidente Dilma Rousseff. “Depois que o populista de direita Jair Bolsonaro, amigo de Trump, conquistou a presidência em 2018, Havana os retirou”, destaca o jornal. “A partida deles deixou algumas das comunidades mais vulneráveis do Brasil carentes”.

Alexandre Padilha, ex-ministro da Saúde no governo Dilma: “O Brasil está chegando em um momento crítico da pandemia em pior estado do que estávamos antes”

Alexandre Padilha, ex-ministro da Saúde no governo Dilma: “O Brasil está chegando em um momento crítico da pandemia em pior estado do que estávamos antes”. Foto: Agência Brasil

A reportagem informa que o Ministério da Saúde estima que 90% dos casos são tratados em pequenas clínicas de saúde pública que os cubanos já haviam ocupado. Alexandre Padilha, ministro da Saúde de Dilma – hoje deputado federal pelo PT de São Paulo – é citado pelo jornal. Ele diz que a falta de equipe médica cubana significa que“o Brasil está chegando em um momento crítico da pandemia em pior estado do que estávamos antes”.

Havana auxilia 17 países

À medida que o vírus assola países ao redor do mundo, as brigadas médicas de Cuba – “a ferramenta diplomática de maior alcance e mais influente da ilha” – estão tendo um momento ressurgente. “Desde o início da pandemia, Havana chegou a um acordo para enviar equipes de emergência para 17 países, da Itália a Andorra, do México ao Haiti”, informa o jornal.

O renascimento da “diplomacia médica de Cuba” está provocando fortes alertas do governo Trump que colocou o degelo da era Obama com Havana em marcha ré. “À medida que o mortal coronavírus se espalha, uma emergência que exige todas as mãos, mais países estão vendo médicos cubanos como parte da solução”, informa o jornal ‘Washington Post’.

“Os críticos dizem que sua saída de alguns países da América do Sul deixou buracos nos sistemas de saúde pública desgastados, que se tornaram perigosamente mais amplos durante a pandemia”, relata a reportagem. “Na Bolívia, centenas de médicos cubanos saíram em novembro, depois que a vice-presidente de direita Jeanine Anez substituiu o presidente socialista Evo Morales em novembro e os laços entre La Paz e Havana rapidamente se dissiparam”.

“Se a brigada médica cubana ainda estivesse na Bolívia, haveria melhor gerenciamento do coronavírus”, diz María Bolivia Rothe, autoridade de saúde do governo de Evo Morales. “Por quê?”, questiona, para em seguida responder: “Porque os médicos cubanos sempre iam aonde ninguém iria”.

‘Padrão ouro’ na saúde pública

Diz a reportagem do ‘Post’: “Desde a década de 1960, as brigadas médicas de Cuba têm sido o rosto público de um sistema de saúde anunciado pelos governos socialistas como o padrão-ouro para os países em desenvolvimento, mas que passou por momentos mais difíceis após a queda do Muro de Berlim”.

“Hoje, o programa mantém mais de 28 mil funcionários médicos cubanos em 60 países, uma importante fonte de renda para um estado comunista, espremido pelo embargo de décadas dos EUA”, descreve o jornal americano. “As brigadas ajudaram a Indonésia após o tsunami de 2004 e o Haiti após o devastador terremoto de 2010 e o subsequente surto de cólera. As equipes foram enviadas para a Libéria, Guiné e Serra Leona para combater o Ebola em 2014”.

“O que esses médicos estão fazendo é heróico”, afirma José Miguel Vivanco, diretor da Human Rights Watch nas Américas. As autoridades cubanas não divulgam os detalhes de seus contratos médicos, mas rejeitaram as alegações de abuso.

“É um rótulo de propaganda bem calculado, concebido pelo governo dos EUA, para desacreditar o que é uma conquista moral indiscutível de um país em desenvolvimento”, diz Fernández de Cossío, diretor geral do Ministério de Relações Exteriores de Cuba para os EUA, em comunicado ao ‘Post’. “Não é segredo que é política dos EUA desacreditar Cuba e não tolerar nenhuma noção de reconhecimento ao nosso país”.

Acordos importantes

O jornal lembra que o Equador pediu assistência médica a Cuba durante uma epidemia de dengue em 2001 e após um terremoto de 2016. Os acordos formais foram firmados entre 2013 e 2015, quando o então presidente Rafael Correa – “um esquerdista anti-EUA” –, estreitou os laços com Havana.

Até 2015, havia de 800 a 1.000 especialistas cubanos no país, segundo Carina Vance Mafla, ministra da Saúde de Correa. Alguns trabalhavam em grandes cidades como Quito, capital e Guayaquil. Mas outros estavam estacionados em áreas rurais distantes, onde “é quase impossível preencher posições”, disse Vance Mafla.

Países que formam novas brigadas para combater o coronavírus consideram os médicos cubanos indispensáveis, descreve o jornal. Uma equipe de 31 médicos e enfermeiros cubanos chegou recentemente a Antígua e Barbuda para formar o núcleo da resposta emergencial do país do Caribe, disse o primeiro-ministro Gaston Browne.

“Muitas de nossas enfermeiras locais têm medo de tratar o Covid-19 porque é muito infecciosa; eles não têm esse tipo de experiência”, disse Brown ao ‘Post’. “Por estarem na linha de frente da África Ocidental combatendo o Ebola, os médicos cubanos têm maior competência, com certeza”.

“O ponto é que precisávamos de assistência para lidar com esse vírus com risco de vida e que a ajuda disponível estava em Cuba”, disse Brown. “Se os EUA pudessem ter oferecido, nós teríamos aceitado. Somos um pequeno país em desenvolvimento. Quais são as nossas opções?”